Saturday, January 14, 2012
Grafias Noturnas
Abaixo, os links para 14 dos contos do livro Grafias Noturnas, de L.F. Riesemberg.
A Cápsula do Tempo
O Guarda-Chuva
A Emissora
Pessoas de Bem
O Balanço
O Botão
A Visão
A Presa e o Predador
Panelas de Ouro
No Bordel, depois da meia-noite
Racha
A Reunião
A Lei de Lavoisier (Aplicada à Arte)
Meu Herói
A Emissora (L.F. Riesemberg)
Passava das três da manhã, e a estrada continuava vazia à minha frente. Nessas regiões desertas, onde os postos de gasolina ficam a cada quinhentos quilômetros, é melhor nem pensar no pior. Eu viajava sozinho, e o celular estava sem sinal. Um pneu furado, uma pane no motor ou falta de combustível poderiam me trazer muito mais que um mero atraso.
Depois de horas dirigindo, o sono me fez ligar o rádio do carro para eu procurar alguma estação que tocasse boa música ou, ao menos, um locutor falando qualquer bobagem. Era importante algo que me mantivesse bem desperto.
Girei o botão do aparelho de uma ponta a outra, e somente a ruidosa estática saiu das caixas de som.
Ainda sem tirar os olhos da rodovia, dei mais uma chance ao velho rádio e continuei a busca, até que aos poucos uma música foi surgindo entre a chiadeira. Estacionei o marcador num ponto em que o som ficava quase livre dos ruídos e me contentei daquele jeito. Agora meus ouvidos teriam companhia enquanto a antena do carro captasse aquela emissora.
Tocava uma ótima canção de rock antigo, cantada em Inglês por um vocalista rouco acompanhado de um instrumental afiado. Feliz com o achado, logo eu passei a assobiar o grudento refrão enquanto pisava fundo no acelerador. Lá fora, as estrelas brilhavam no céu, e eu seguia a solitária viagem.
Tive pena quando a canção foi se esvaindo, anunciando seu fim, e fiquei atento para ouvir o locutor dizer o nome da maravilhosa banda que a tocava. Porém, a essas horas da madrugada a programação é geralmente automática, sem locução, e acabei esquecendo aquela música assim que começou a seguinte.
Quando os acordes da outra canção inundaram o interior do veículo, fiquei na dúvida sobre qual seria a banda tocando. Mas assim que o primeiro verso foi cantado, não tive mais dúvidas: era um conhecido astro dos áureos anos do verdadeiro rock n’ roll.
Nunca fui um grande fã do cara, mas havia várias de suas canções que eram gostosas de ouvir, e aquela era uma delas. Porém, com minha pouca familiaridade com a carreira do ídolo, também não reconheci aquela faixa.
Minha viagem avançava mais rápido ouvindo a ótima estação de rádio. O deserto parecia lindo lá fora, iluminado pelo luar.
Inundado pelas boas vibrações que a música exercia sobre mim, segui em êxtase, canção após canção, com os olhos colados na estrada, mãos ao volante, pés ao acelerador e, sobretudo, com os ouvidos bem atentos ao formidável som dos auto-falantes.
Depois de uma bateria de ótimos exemplares do cancioneiro antigo, a suave voz de um locutor finalmente se comunicou com os ouvintes. Ele anunciou as últimas faixas executadas, e dei conta de que conhecia a maioria daquelas bandas, mas nunca tinha ouvido falar em nenhuma daquelas canções. Achei que fosse um programa especializado em músicas raras de artistas conhecidos. Algumas rádios faziam esse tipo de programação, mas dificilmente uma música obscura de uma banda famosa era tão boa como qualquer uma daquelas que estavam tocando naquela estação.
Depois da intromissão, o locutor agradeceu a audiência e fez uma breve descrição do programa, com sua voz impecável:
Novas canções de grandes artistas que voltaram há pouco tempo da Terra.
Só aí é que fui me dar conta de que a programação era composta exclusivamente por faixas de músicos mortos. Achei muito curioso o comentário do radialista, mas o que ele disse parecia errado. Ou então eu é que devia não ter ouvido muito bem.
Ainda estava pensando nas estranhas canções que acabara de ouvir, e no ainda mais estranho comentário do radialista, quando percebi que a voz que passou a cantar em seguida no rádio era de uma intérprete muito conhecida no meu país, já falecida há décadas. Porém, por mais incrível que parecesse, ela cantava uma canção novíssima, um sucesso que outro artista havia emplacado cerca de três meses atrás!
No exato segundo da descoberta ouvi um estouro. O carro deu um tranco, rodopiou e foi parar fora da pista, chocando-se com uma árvore. O para-brisa estourou, espalhando fragmentos de vidro por todo o interior do veículo. Minha cabeça bateu no volante e por um momento tudo ficou preto e quieto.
No baque, o rádio parou de funcionar. Mesmo depois que voltei a ficar calmo, não me preocupei em tentar ligá-lo outra vez. Minha maior preocupação seria me certificar de que eu não estava muito ferido e de que o carro funcionava.
Aparentemente eu estava bem. O carro, não. Tentei várias vezes fazer o motor funcionar, mas não consegui. Finalmente eu estava vivendo um de meus maiores pesadelos: ficar sozinho na estrada, com o carro estragado e um celular sem serviço.
Os ponteiros do relógio ainda marcavam na casa das 3 horas da manhã. Desde criança, sempre achei que esta era a pior hora da noite. Tarde demais para se estar acordado, cedo demais para esperar que o Sol apareça.
Como eu sempre sofri de ansiedade, não aguentei ficar esperando ali dentro. Mesmo que passasse algum veículo pelo local — e eu parecia ser o único motorista a estar na estrada naquela noite — seria perigoso pedir ajuda para um estranho àquele horário. E esperar o dia raiar para só então ir atrás de um posto de gasolina era muita perda de tempo.
Tranquei o carro e fui caminhando pela beira da rodovia, usando apenas a lua para iluminar meu caminho. Como eu já não via um posto há muito tempo, era possível que o próximo não estivesse tão longe.
Fui apressado, mas estava distraído, ainda pensando na misteriosa estação de rádio que ouvi antes do acidente, e assoviando os refrões que continuavam na memória. Andei por um bom tempo pelo acostamento, sem que nenhum carro passasse por mim e sem encontrar nenhuma placa dizendo a quantos quilômetros ficava o próximo posto.
Resolvi voltar ao carro. Lá, ao menos eu poderia tentar ouvir mais um pouco de música — seja lá de onde ela viesse.
Fiz todo o percurso de volta respirando a suave brisa da noite, que parecia particularmente longa demais.
Quando cheguei ao ponto em que o carro bateu, vi algo ainda mais estranho que me aguardava sentado no assento do motorista.
Aproximei-me com cuidado, esperando explicar racionalmente tudo o que estava se passando, mas no fundo eu já sabia o que eu ia encontrar.
Abri a porta, sem pressa, para me certificar do que estava ali. Minha constatação não foi a mais feliz possível.
Era absurdo, mas vi a mim mesmo, com a cara enfiada na direção, sangue quase seco na roupa e todo o corpo preocupadamente imóvel.
Chegara o meu fim, e só então eu me dava conta.
Ajoelhei-me na terra, ao lado do carro, e desatei a chorar.
Minha vida não tinha sido bem aproveitada, e ainda havia várias questões pendentes a tratar com muitas pessoas. Aquela própria viagem que eu fazia era com um objetivo nada nobre, sendo que eu tinha tido a oportunidade de deixar todo o meu passado negro de lado e trilhar um caminho honesto.
Comovido e desesperado, implorei por uma nova chance. Daria tudo para poder voltar para casa, abraçar a família, fazer as pazes com os desafetos e colocar em prática velhos planos.
Fiquei naquele estado, tapando os olhos com as mãos para não ter mais aquela terrível visão da minha própria morte.
Neste momento algo me lembrou a estação de rádio, me fazendo acreditar que as pessoas mortas continuavam a viver em uma outra dimensão, e faziam trabalhos ainda mais inspirados do que em vida.
Mesmo assim era muito doloroso pensar em abandonar as pessoas queridas e tantas coisas pela metade, sendo que eu poderia terminá-las de um jeito melhor. As lágrimas continuavam a escorrer pelo meu rosto e, pela primeira vez em muitos anos, rezei e pedi perdão a Deus pelo rumo que minha vida tinha tomado.
Logo após isso, de súbito caí em mim e passei a sentir uma forte dor de cabeça. Abri os olhos e, depois que eles voltaram a enxergar direito, vi que eu estava outra vez no assento do carro parado, com a cabeça caída sobre a direção.
Os primeiros raios de Sol surgiam no horizonte, e um senhor que havia estacionado sua camionete no acostamento tentava falar comigo.
— Você está ferido, rapaz? Ficou inconsciente por um bom tempo!
O rádio continuava ligado, com o marcador das estações no mesmo ponto de antes. Mas dos auto-falantes só saía estática.
Depois de horas dirigindo, o sono me fez ligar o rádio do carro para eu procurar alguma estação que tocasse boa música ou, ao menos, um locutor falando qualquer bobagem. Era importante algo que me mantivesse bem desperto.
Girei o botão do aparelho de uma ponta a outra, e somente a ruidosa estática saiu das caixas de som.
Ainda sem tirar os olhos da rodovia, dei mais uma chance ao velho rádio e continuei a busca, até que aos poucos uma música foi surgindo entre a chiadeira. Estacionei o marcador num ponto em que o som ficava quase livre dos ruídos e me contentei daquele jeito. Agora meus ouvidos teriam companhia enquanto a antena do carro captasse aquela emissora.
Tocava uma ótima canção de rock antigo, cantada em Inglês por um vocalista rouco acompanhado de um instrumental afiado. Feliz com o achado, logo eu passei a assobiar o grudento refrão enquanto pisava fundo no acelerador. Lá fora, as estrelas brilhavam no céu, e eu seguia a solitária viagem.
Tive pena quando a canção foi se esvaindo, anunciando seu fim, e fiquei atento para ouvir o locutor dizer o nome da maravilhosa banda que a tocava. Porém, a essas horas da madrugada a programação é geralmente automática, sem locução, e acabei esquecendo aquela música assim que começou a seguinte.
Quando os acordes da outra canção inundaram o interior do veículo, fiquei na dúvida sobre qual seria a banda tocando. Mas assim que o primeiro verso foi cantado, não tive mais dúvidas: era um conhecido astro dos áureos anos do verdadeiro rock n’ roll.
Nunca fui um grande fã do cara, mas havia várias de suas canções que eram gostosas de ouvir, e aquela era uma delas. Porém, com minha pouca familiaridade com a carreira do ídolo, também não reconheci aquela faixa.
Minha viagem avançava mais rápido ouvindo a ótima estação de rádio. O deserto parecia lindo lá fora, iluminado pelo luar.
Inundado pelas boas vibrações que a música exercia sobre mim, segui em êxtase, canção após canção, com os olhos colados na estrada, mãos ao volante, pés ao acelerador e, sobretudo, com os ouvidos bem atentos ao formidável som dos auto-falantes.
Depois de uma bateria de ótimos exemplares do cancioneiro antigo, a suave voz de um locutor finalmente se comunicou com os ouvintes. Ele anunciou as últimas faixas executadas, e dei conta de que conhecia a maioria daquelas bandas, mas nunca tinha ouvido falar em nenhuma daquelas canções. Achei que fosse um programa especializado em músicas raras de artistas conhecidos. Algumas rádios faziam esse tipo de programação, mas dificilmente uma música obscura de uma banda famosa era tão boa como qualquer uma daquelas que estavam tocando naquela estação.
Depois da intromissão, o locutor agradeceu a audiência e fez uma breve descrição do programa, com sua voz impecável:
Novas canções de grandes artistas que voltaram há pouco tempo da Terra.
Só aí é que fui me dar conta de que a programação era composta exclusivamente por faixas de músicos mortos. Achei muito curioso o comentário do radialista, mas o que ele disse parecia errado. Ou então eu é que devia não ter ouvido muito bem.
Ainda estava pensando nas estranhas canções que acabara de ouvir, e no ainda mais estranho comentário do radialista, quando percebi que a voz que passou a cantar em seguida no rádio era de uma intérprete muito conhecida no meu país, já falecida há décadas. Porém, por mais incrível que parecesse, ela cantava uma canção novíssima, um sucesso que outro artista havia emplacado cerca de três meses atrás!
No exato segundo da descoberta ouvi um estouro. O carro deu um tranco, rodopiou e foi parar fora da pista, chocando-se com uma árvore. O para-brisa estourou, espalhando fragmentos de vidro por todo o interior do veículo. Minha cabeça bateu no volante e por um momento tudo ficou preto e quieto.
No baque, o rádio parou de funcionar. Mesmo depois que voltei a ficar calmo, não me preocupei em tentar ligá-lo outra vez. Minha maior preocupação seria me certificar de que eu não estava muito ferido e de que o carro funcionava.
Aparentemente eu estava bem. O carro, não. Tentei várias vezes fazer o motor funcionar, mas não consegui. Finalmente eu estava vivendo um de meus maiores pesadelos: ficar sozinho na estrada, com o carro estragado e um celular sem serviço.
Os ponteiros do relógio ainda marcavam na casa das 3 horas da manhã. Desde criança, sempre achei que esta era a pior hora da noite. Tarde demais para se estar acordado, cedo demais para esperar que o Sol apareça.
Como eu sempre sofri de ansiedade, não aguentei ficar esperando ali dentro. Mesmo que passasse algum veículo pelo local — e eu parecia ser o único motorista a estar na estrada naquela noite — seria perigoso pedir ajuda para um estranho àquele horário. E esperar o dia raiar para só então ir atrás de um posto de gasolina era muita perda de tempo.
Tranquei o carro e fui caminhando pela beira da rodovia, usando apenas a lua para iluminar meu caminho. Como eu já não via um posto há muito tempo, era possível que o próximo não estivesse tão longe.
Fui apressado, mas estava distraído, ainda pensando na misteriosa estação de rádio que ouvi antes do acidente, e assoviando os refrões que continuavam na memória. Andei por um bom tempo pelo acostamento, sem que nenhum carro passasse por mim e sem encontrar nenhuma placa dizendo a quantos quilômetros ficava o próximo posto.
Resolvi voltar ao carro. Lá, ao menos eu poderia tentar ouvir mais um pouco de música — seja lá de onde ela viesse.
Fiz todo o percurso de volta respirando a suave brisa da noite, que parecia particularmente longa demais.
Quando cheguei ao ponto em que o carro bateu, vi algo ainda mais estranho que me aguardava sentado no assento do motorista.
Aproximei-me com cuidado, esperando explicar racionalmente tudo o que estava se passando, mas no fundo eu já sabia o que eu ia encontrar.
Abri a porta, sem pressa, para me certificar do que estava ali. Minha constatação não foi a mais feliz possível.
Era absurdo, mas vi a mim mesmo, com a cara enfiada na direção, sangue quase seco na roupa e todo o corpo preocupadamente imóvel.
Chegara o meu fim, e só então eu me dava conta.
Ajoelhei-me na terra, ao lado do carro, e desatei a chorar.
Minha vida não tinha sido bem aproveitada, e ainda havia várias questões pendentes a tratar com muitas pessoas. Aquela própria viagem que eu fazia era com um objetivo nada nobre, sendo que eu tinha tido a oportunidade de deixar todo o meu passado negro de lado e trilhar um caminho honesto.
Comovido e desesperado, implorei por uma nova chance. Daria tudo para poder voltar para casa, abraçar a família, fazer as pazes com os desafetos e colocar em prática velhos planos.
Fiquei naquele estado, tapando os olhos com as mãos para não ter mais aquela terrível visão da minha própria morte.
Neste momento algo me lembrou a estação de rádio, me fazendo acreditar que as pessoas mortas continuavam a viver em uma outra dimensão, e faziam trabalhos ainda mais inspirados do que em vida.
Mesmo assim era muito doloroso pensar em abandonar as pessoas queridas e tantas coisas pela metade, sendo que eu poderia terminá-las de um jeito melhor. As lágrimas continuavam a escorrer pelo meu rosto e, pela primeira vez em muitos anos, rezei e pedi perdão a Deus pelo rumo que minha vida tinha tomado.
Logo após isso, de súbito caí em mim e passei a sentir uma forte dor de cabeça. Abri os olhos e, depois que eles voltaram a enxergar direito, vi que eu estava outra vez no assento do carro parado, com a cabeça caída sobre a direção.
Os primeiros raios de Sol surgiam no horizonte, e um senhor que havia estacionado sua camionete no acostamento tentava falar comigo.
— Você está ferido, rapaz? Ficou inconsciente por um bom tempo!
O rádio continuava ligado, com o marcador das estações no mesmo ponto de antes. Mas dos auto-falantes só saía estática.
Pessoas de Bem (L.F. Riesemberg)
Alguns acreditam que não existe sorte, ou coincidências: que somos peças de um tabuleiro, em um jogo criado por Deus.
Pois era mesmo difícil acreditar naquela sorte, ou coincidência, ou seja lá o que fosse. Eu olhava a foto da revista que estava em minhas mãos, e então via o mendigo na calçada. Eram a mesma pessoa, obviamente. Na foto, o homem sorria, estava bem barbeado e usava um terno caríssimo. Ao vivo, tinha um olhar vago, a barba crescida e vestia uns trapos. Mas era ele, com certeza.
A revista trazia um artigo sobre um milionário do ramo automobilístico que estava desaparecido há semanas. Os filhos explicavam, na entrevista, que tratava-se de uma pessoa doente, que sofria lapsos de memória e esquecia-se completamente quem era, ou onde morava. Certa vez tinha ficado dias fora de casa, andando nas ruas feito mendigo. Quando recobrou a memória, foi direto para um hotel cinco estrelas para se recuperar. Quanta diferença! Pegar o almoço em uma lata de lixo e jantar lagosta no restaurante mais caro da cidade.
Agora tinha acontecido mais uma vez. Que mina de ouro eu fui encontrar naquela manhã, logo ali na sarjeta.
E tive uma ideia: antes que o velho recobrasse a consciência, eu iria ajudá-lo, “descompromissadamente”. Assim que ele recordasse quem era, trataria de ser muito generoso com aquele que o acolheu.
Aproximei-me dele, que estava sentado na calçada, e disse: “Meu senhor, como vai? Tem fome? Está precisando de alguma coisa?”.
O velho olhou para os lados, tentando saber se era com ele mesmo, e então me encarou, ainda sem saber o que dizer. Eu continuei: “Olha, não estranhe. É que não suporto ver uma pessoa passando dificuldades, e gostaria de ajudá-lo, caso queira. Vamos lá, me diga seu nome”.
O velho continuou embasbacado, sem se mexer, mas abriu a boca e soltou: “João”.
Ouvi aquilo com muita alegria. Era ele! O milionário era mais conhecido pelo sobrenome, mas foi batizado como João Carlos. E ouvi dizer que mesmo os desmemoriados mantêm na consciência algumas informações básicas, como o primeiro nome, e às vezes a idade. Coisas que uma criança também pode responder sobre si mesma.
Àquela altura, até pensei em ligar para os filhos do homem. Mas se eu o fizesse, saberiam que haveria um certo interesse da minha parte. E eu queria ajudar aquele pobre coitado sem compromisso, e ser reconhecido pelo belo gesto. Numa dessas, até naquela revista eu apareceria. “A alma caridosa que ajudou um morador de rua sem saber que se tratava de um dos empresários mais ricos do país”, diria a reportagem. Isto sem falar na recompensa que a família me daria.
Decidi ficar um pouco com ele, e tentar fazê-lo lembrar de sua vida de conforto e riqueza, diferente daquela miséria pela qual estava passando.
Não tive dúvidas: um restaurante caro seria o remédio mais indicado para aquele caso de amnésia temporária. Porém, para entrar em um lugar desses, tive que tomar algumas providências antes.
Antes de tudo, passamos em um barbeiro. Gastei um pouco de dinheiro para que ele tivesse a barba feita e aparasse o cabelo, mas, em troca, eu receberia mil vezes aquilo.
Com o visual melhorado, ele ficou claramente mais contente e saiu de lá falando um pouco mais, dizendo o quanto apreciava (palavra de gente culta) a minha bondade. “Não se vê muita gente assim”, falou.
Em seguida, passamos em uma loja que aluga trajes, para que ele pudesse entrar no restaurante, e principalmente para se sentir como o rico que era. Meia hora depois, ele já estava com uma roupa melhor que a minha. Para mim, não havia mais dúvidas: se descontasse os quilos a menos e aquela estranheza que há no rosto de quem acabou de se livrar de uma barba, aquele velho que peguei na rua era a mesma pessoa da revista. Já tinha até mesmo recuperado nos olhos e na pele uma parte daquele brilho que todos os ricos já parecem trazer do berço.
Continuando minha missão de trazê-lo de volta à vida, coloquei-o em meu carro e fomos a um restaurante mais fino do que os com os quais estou acostumado. Eu tentava fazê-lo falar, mas ele se fechava, concentrado no sabor da comida e na delicadeza dos talheres, e resolvi não forçar a barra. Com todas aquelas informações, ele lembraria tudo antes que eu precisasse pagar a conta.
Não lembrou. Passava o tempo e eu já não sabia aonde mais levá-lo sem que precisasse gastar com isso. Não me restou alternativa senão convidá-lo para minha casa: era preciso garantir que ele não me escaparia.
Contudo, quando saíamos do restaurante, demos de cara com um mendigo de verdade, que esperava na saída para pedir moedas aos clientes que se dirigiam ao estacionamento guardando o troco no bolso. Por outra daquelas malditas coincidências, ou não, os dois já se conheciam das ruas. Tinham até se ajudado uns dias atrás. Sem dar aqui muitas explicações, para não alongar meu relato, resumo esta incômoda parte dizendo que, para garantir minha recompensa, tive que aceitar levar também aquele outro homem conosco no banco de trás, acompanhado de seu inseparável cachorro vira-latas, é claro. Afinal, eu era uma pessoa boa e gostava de ajudar os outros, não é?
Em casa, tive que oferecer uma ducha para meus convidados, e depois abri uma garrafa de vinho para brindar aquele dia feliz com eles. Minha esposa teve um sobressalto quando chegou e viu aquela cena em nossa sala. Mas eu consegui dizer, com os olhos, que tudo estava sob controle. Quando ela foi até a cozinha, saí de perto das visitas e lhe expliquei, em um minuto ou menos, o meu plano. Ela estava louca comigo, porque o cachorro havia emporcalhado a varanda e destruído parte do jardim, enquanto eu me divertia com dois estranhos com cara de indigentes. Mas ao reconhecer um dos dois “mendigos” na revista, acalmou-se e decidiu entrar no meu jogo.
Passaram-se alguns quartos de hora. O amigo do meu convidado esticava as pernas sobre a mesinha, com os meus chinelos nos pés. Em certo momento, quando eu já estava desistindo de fazer o homem lembrar quem ele era, e ia pedir para minha esposa dar um telefonema, ele começou a falar o que eu queria ouvir: “Sabe, filho, é muito bom saber que existem pessoas boas como você, que ajudam os outros”. Eu disse: “Que nada. Somos todos irmãos perante Deus. Todos devemos fazer caridade”, e outro blábláblá deste estilo.
Depois de uma pausa, ele continuou a falar. Eu já sentia o que estava por vir, e meus dedos começaram a coçar de tanta excitação.
“Tudo isso que você me deu hoje - o almoço, as roupas, a bebida, o banho quente e até a companhia, me fizeram lembrar de uma coisa”.
“Sim! Sim!”, eu pensava. “Eu estava certo e sou um gênio!”.
O milionário continuou:
“Eu já tive tudo isso, meus amigos: carro importado, uma mansão... não riam, é verdade!”.
Eu sabia que era verdade. Ele não precisava se preocupar com isso. E prosseguiu a revelação:
“Eu aprendi que a vida só é justa com quem é justo. Eu sou de uma família muito rica, que vocês certamente sempre ouvem falar. Mas depois que eu traí o meu irmão gêmeo, e quase o matei - por cobiça – eu perdi tudo! Agora minha própria família me detesta e nunca me perdoará. Fingem que não existo, e da última vez que tentei uma reaproximação, soltaram os cachorros e mandaram um segurança me bater, acreditam?”.
“Mas estou bem agora, porque sei que posso contar com o bom coração de pessoas caridosas como você. Pessoas do bem!”, disse. E recostou-se confortavelmente em meu sofá, bebendo o último gole da taça do meu vinho francês.
Pois era mesmo difícil acreditar naquela sorte, ou coincidência, ou seja lá o que fosse. Eu olhava a foto da revista que estava em minhas mãos, e então via o mendigo na calçada. Eram a mesma pessoa, obviamente. Na foto, o homem sorria, estava bem barbeado e usava um terno caríssimo. Ao vivo, tinha um olhar vago, a barba crescida e vestia uns trapos. Mas era ele, com certeza.
A revista trazia um artigo sobre um milionário do ramo automobilístico que estava desaparecido há semanas. Os filhos explicavam, na entrevista, que tratava-se de uma pessoa doente, que sofria lapsos de memória e esquecia-se completamente quem era, ou onde morava. Certa vez tinha ficado dias fora de casa, andando nas ruas feito mendigo. Quando recobrou a memória, foi direto para um hotel cinco estrelas para se recuperar. Quanta diferença! Pegar o almoço em uma lata de lixo e jantar lagosta no restaurante mais caro da cidade.
Agora tinha acontecido mais uma vez. Que mina de ouro eu fui encontrar naquela manhã, logo ali na sarjeta.
E tive uma ideia: antes que o velho recobrasse a consciência, eu iria ajudá-lo, “descompromissadamente”. Assim que ele recordasse quem era, trataria de ser muito generoso com aquele que o acolheu.
Aproximei-me dele, que estava sentado na calçada, e disse: “Meu senhor, como vai? Tem fome? Está precisando de alguma coisa?”.
O velho olhou para os lados, tentando saber se era com ele mesmo, e então me encarou, ainda sem saber o que dizer. Eu continuei: “Olha, não estranhe. É que não suporto ver uma pessoa passando dificuldades, e gostaria de ajudá-lo, caso queira. Vamos lá, me diga seu nome”.
O velho continuou embasbacado, sem se mexer, mas abriu a boca e soltou: “João”.
Ouvi aquilo com muita alegria. Era ele! O milionário era mais conhecido pelo sobrenome, mas foi batizado como João Carlos. E ouvi dizer que mesmo os desmemoriados mantêm na consciência algumas informações básicas, como o primeiro nome, e às vezes a idade. Coisas que uma criança também pode responder sobre si mesma.
Àquela altura, até pensei em ligar para os filhos do homem. Mas se eu o fizesse, saberiam que haveria um certo interesse da minha parte. E eu queria ajudar aquele pobre coitado sem compromisso, e ser reconhecido pelo belo gesto. Numa dessas, até naquela revista eu apareceria. “A alma caridosa que ajudou um morador de rua sem saber que se tratava de um dos empresários mais ricos do país”, diria a reportagem. Isto sem falar na recompensa que a família me daria.
Decidi ficar um pouco com ele, e tentar fazê-lo lembrar de sua vida de conforto e riqueza, diferente daquela miséria pela qual estava passando.
Não tive dúvidas: um restaurante caro seria o remédio mais indicado para aquele caso de amnésia temporária. Porém, para entrar em um lugar desses, tive que tomar algumas providências antes.
Antes de tudo, passamos em um barbeiro. Gastei um pouco de dinheiro para que ele tivesse a barba feita e aparasse o cabelo, mas, em troca, eu receberia mil vezes aquilo.
Com o visual melhorado, ele ficou claramente mais contente e saiu de lá falando um pouco mais, dizendo o quanto apreciava (palavra de gente culta) a minha bondade. “Não se vê muita gente assim”, falou.
Em seguida, passamos em uma loja que aluga trajes, para que ele pudesse entrar no restaurante, e principalmente para se sentir como o rico que era. Meia hora depois, ele já estava com uma roupa melhor que a minha. Para mim, não havia mais dúvidas: se descontasse os quilos a menos e aquela estranheza que há no rosto de quem acabou de se livrar de uma barba, aquele velho que peguei na rua era a mesma pessoa da revista. Já tinha até mesmo recuperado nos olhos e na pele uma parte daquele brilho que todos os ricos já parecem trazer do berço.
Continuando minha missão de trazê-lo de volta à vida, coloquei-o em meu carro e fomos a um restaurante mais fino do que os com os quais estou acostumado. Eu tentava fazê-lo falar, mas ele se fechava, concentrado no sabor da comida e na delicadeza dos talheres, e resolvi não forçar a barra. Com todas aquelas informações, ele lembraria tudo antes que eu precisasse pagar a conta.
Não lembrou. Passava o tempo e eu já não sabia aonde mais levá-lo sem que precisasse gastar com isso. Não me restou alternativa senão convidá-lo para minha casa: era preciso garantir que ele não me escaparia.
Contudo, quando saíamos do restaurante, demos de cara com um mendigo de verdade, que esperava na saída para pedir moedas aos clientes que se dirigiam ao estacionamento guardando o troco no bolso. Por outra daquelas malditas coincidências, ou não, os dois já se conheciam das ruas. Tinham até se ajudado uns dias atrás. Sem dar aqui muitas explicações, para não alongar meu relato, resumo esta incômoda parte dizendo que, para garantir minha recompensa, tive que aceitar levar também aquele outro homem conosco no banco de trás, acompanhado de seu inseparável cachorro vira-latas, é claro. Afinal, eu era uma pessoa boa e gostava de ajudar os outros, não é?
Em casa, tive que oferecer uma ducha para meus convidados, e depois abri uma garrafa de vinho para brindar aquele dia feliz com eles. Minha esposa teve um sobressalto quando chegou e viu aquela cena em nossa sala. Mas eu consegui dizer, com os olhos, que tudo estava sob controle. Quando ela foi até a cozinha, saí de perto das visitas e lhe expliquei, em um minuto ou menos, o meu plano. Ela estava louca comigo, porque o cachorro havia emporcalhado a varanda e destruído parte do jardim, enquanto eu me divertia com dois estranhos com cara de indigentes. Mas ao reconhecer um dos dois “mendigos” na revista, acalmou-se e decidiu entrar no meu jogo.
Passaram-se alguns quartos de hora. O amigo do meu convidado esticava as pernas sobre a mesinha, com os meus chinelos nos pés. Em certo momento, quando eu já estava desistindo de fazer o homem lembrar quem ele era, e ia pedir para minha esposa dar um telefonema, ele começou a falar o que eu queria ouvir: “Sabe, filho, é muito bom saber que existem pessoas boas como você, que ajudam os outros”. Eu disse: “Que nada. Somos todos irmãos perante Deus. Todos devemos fazer caridade”, e outro blábláblá deste estilo.
Depois de uma pausa, ele continuou a falar. Eu já sentia o que estava por vir, e meus dedos começaram a coçar de tanta excitação.
“Tudo isso que você me deu hoje - o almoço, as roupas, a bebida, o banho quente e até a companhia, me fizeram lembrar de uma coisa”.
“Sim! Sim!”, eu pensava. “Eu estava certo e sou um gênio!”.
O milionário continuou:
“Eu já tive tudo isso, meus amigos: carro importado, uma mansão... não riam, é verdade!”.
Eu sabia que era verdade. Ele não precisava se preocupar com isso. E prosseguiu a revelação:
“Eu aprendi que a vida só é justa com quem é justo. Eu sou de uma família muito rica, que vocês certamente sempre ouvem falar. Mas depois que eu traí o meu irmão gêmeo, e quase o matei - por cobiça – eu perdi tudo! Agora minha própria família me detesta e nunca me perdoará. Fingem que não existo, e da última vez que tentei uma reaproximação, soltaram os cachorros e mandaram um segurança me bater, acreditam?”.
“Mas estou bem agora, porque sei que posso contar com o bom coração de pessoas caridosas como você. Pessoas do bem!”, disse. E recostou-se confortavelmente em meu sofá, bebendo o último gole da taça do meu vinho francês.
A Presa e o Predador (L.F.Riesemberg)
A página do livro de História que ele tinha nas mãos trazia um interessante texto sobre a propagação do Cristianismo em Roma.
Podia-se ler, em letras marrons, ao lado da figura de alguns mártires:
“Durante o Império Romano os cristãos foram constantemente perseguidos. A eles foram infligidas várias práticas de tortura e morte, como a crucifixação e o apedrejamento, além de serem fervidos no óleo quente ou devorados, nas arenas, por leões ou outras feras”.
Eram ótimas ideias, pensou o leitor.
Daria tudo para vê-lo ardendo. As terríveis bolhas se formando por toda a pele. A sua cara de assombro antes de cair no óleo. Antes disso, seu desespero pelo caminho até lá, quando o levavam em uma jaula sobre rodas e todo o povo lhe cuspindo e atirando pedras. Eu mesmo queria ser o carrasco a atirá-lo no caldeirão.
Folheando o livro mais um pouco, surgiram outras páginas interessantes, mas atraiu-lhe a atenção o capítulo sobre a II Guerra Mundial.
Deteve-se sobre outra imagem, agora a fotografia em preto e branco de uma fila de judeus magros e carecas, vestindo largas roupas listradas.
“O campo de Auschwitz era equipado com quatro crematórios e câmaras de gás, construídas com o objetivo de exterminar os prisioneiros”, dizia a legenda da fotografia.
O leitor continuava a fantasiar.
Imagino que satisfação eu teria em vê-lo caminhando rumo à morte, quando ele sentisse o cheiro de carne queimada das outras vítimas saindo pela fumaça escura das chaminés. E depois, quando já estivesse trancado no falso lavatório, o gás venenoso começaria a ser expelido pelos canos e ele gritaria, tentaria correr no meio de centenas de outros desesperados, e agonizaria lentamente caído ao chão, babando espuma e esperneando de uma forma patética.
Ficou olhando as outras fotos daquelas páginas, com várias cenas tristes de campos de concentração nazistas.
Observava o livro um tanto satisfeito, mas de certa forma perplexo com a própria crueldade de sua imaginação.
Continuou pensando consigo mesmo sobre o porquê de, na História, alguns terem ficado marcados como bons e outros como maus, até que um irritante tilintar metálico soou no fundo de seus tímpanos.
Era o sinal anunciando o fim do recreio.
Segunda-feira era sempre o pior dia da semana no Ensino Médio.
Começava com duas aulas seguidas de História, tendo a professora mais boçal da Terra. Depois vinham mais ciquenta terríveis minutos de Matemática, e finalmente o intervalo.
Esse era o momento em que dezenas de adolescentes ficavam jogando futebol na quadra de esportes, ou então beijando-se encostados nos muros, ou ainda fumando escondidos nos cantos mais invisíveis.
Mas ele não se encaixava em nenhuma dessas opções. Estava sozinho, sentado no chão, já estudando para a prova da próxima semana, e procurando parecer indiferente aos gritos dos alunos que corriam pelo pátio.
Assim que ouviu o sinal, levantou-se, limpou o pó das calças e caminhou lentamente até o corredor, sendo várias vezes empurrado, no trajeto, por alunos maiores que passavam apressados.
Foi o primeiro da turma a regressar à sala vazia, e sentou-se calmamente em sua carteira.
Logo depois começavam a entrar algumas meninas e meninos, mas só a metade ia para seus lugares a fim de aguardar a professora. O resto ficava em pé, ainda com os lanches nas mãos e continuando o bate papo sobre algum campeonato de futebol ou a respeito da garota da outra série que havia ficado com alguém na festa de sábado.
Ninguém parava para conversar com ele.
Sem mais o que fazer e tentando fugir daquele ambiente hostil, voltou a enterrar os olhos e os óculos sobre um dos seus livros que estavam na mochila.
Ciências.
Havia um trabalho para ser entregue dali a dois dias.
Abriu as páginas ao acaso e encontrou um texto sobre a aranha marrom.
“Sem o tratamento da picada, o veneno pode causar necrose do tecido atingido, falência renal e, em alguns casos, morte”.
Logo abaixo aparecia uma nauseante fotografia da mão de uma pessoa picada. A pele havia ficado preta, numa imensa chaga aberta, com raras chances de voltar a ser um membro normal.
Espero que existam muitas dessas aranhas em sua casa, no meio de seus lençóis, seu cretino.
Remoía os frequentes pensamentos de ódio, quando foi surpreendido por um doloroso tapa em sua cabeça, que fez os cabelos se espalharem pela testa. O golpe vinha daquela mão gorda e suada do bastardo que merecia estar morto.
Ele estava parado em pé atrás da carteira. Sorria como um débil mental, com seu rosto redondo, cabelos raspados e os dentes da frente separados. Mais uma vez o covarde lhe golpeara pelas costas, na frente dos outros, só para se mostrar para as meninas. E as burras ainda davam risinhos quando ele as olhava.
—E aí, babacão? — falou com aquele ganido esgoelado de pré-adolescente, num meio termo entre voz de menino e de menina. Parecia estar sempre berrando, querendo mostrar ao mundo que estava “virando homem” com aquela voz de taquara rachada.
Achegou-se perto do cangote da vítima.
—Não se esqueça de colocar o meu nome no trabalho para quarta-feira.
Vinha um péssimo hálito de sua boca.
—Já sabe o que vai acontecer se não colocar, não é?
E desferiu um soco em seu braço, logo abaixo do ombro.
A dor foi aguda, porque já havia sido golpeado ali há alguns dias, e o hematoma ainda nem tinha se desmanchado.
Os alunos terminavam de chegar à sala, acompanhados pela professora de Português, que entrou e fechou a porta.
O monstro dirigiu-se ao seu lugar, nos fundos, e deixou o menino de óculos sozinho com suas dores e humilhações.
Esse filho de uma cadela vai ver só por fazer essas coisas comigo! Ele me paga! Idiota, babaca, merdão. Eu vou matá-lo, eu sei disso. Vou enfiar esse livro na boca dele, depois pisotear aquela cara de mongolóide, imbecil, vou te dar um tiro na cabeça, estraçalhar esse rosto...
A professora deu início à chamada e logo passou à lição.
Leria um texto sobre Mitologia, e a tarefa dos alunos era reescrevê-lo no caderno.
“...o Minotauro era um ser que tinha corpo de homem e a cabeça de touro. Vivia em um labirinto, e anualmente eram enviados sete moços e sete moças para servirem de sacrifício à criatura”.
Aquele gordo imbecil dentro do labirinto, tremendo as pernas, se borrando de medo. O monstro aparece atrás dele, com seus chifres pontudos, segurando um machado afiado, e desfere um golpe que arranca aquela cabeça redonda e esguicha sangue por toda a parede...
—Mauro, está distraído? — pergunta a professora.
Toda a turma joga os olhares sobre ele, e alguns risinhos correm pelo ar.
A cara fechada ficou mais quente e mais vermelha, quase a ponto de explodir.
Teve que pedir desculpas e dizer que sim, estava prestando atenção.
E o pior do dia ainda nem havia começado: a temível aula de Educação Física.
Daria tudo para substituir aqueles últimos tormentosos momentos da manhã de segunda-feira por agradáveis minutos no laboratório de informática. Preferia ficar até mesmo sozinho na sala de aula, estudando, adiantando as lições. Mas não tinha jeito: era obrigado a dirigir-se ao ginásio, junto com os outros, e prestar-se à humilhação de correr e a fazer parte de um time no qual ninguém o queria.
Não suportava ver aquele bando de adolescentes felizes com a última aula do dia, quando aquilo para ele era o ápice do inferno, quando todos ficavam reparando em seu corpo engraçado e rindo da sua pouca habilidade em qualquer tipo de esporte.
Seu maior medo era o de que tivesse que fazer parte da equipe dos sem camisa. Se fosse obrigado a ficar com o peito nu, fingiria um ataque cardíaco para evitar o constrangimento. Só o veriam sem a camiseta do uniforme caso a tirassem à força — e se isso acontecesse, nunca mais pisaria naquela escola.
Em cada início de aula de Educação Física era essa angústia. Adorava quando estava doente, porque o treinador cretino não poderia forçá-lo a jogar e o deixaria sentado no banco.
Mas hoje sua saúde estava normal, e isso significava problemas.
—Nada de choramingo: hoje quero ver você correndo atrás dessa bola! — disse o professor cabeludo, lhe apontando o indicador, quando o viu chegando ao ginásio. Quanto mais despercebido queria passar, mais era chamado para o centro da atenção de todos.
Mal começara a aula e ele já olhava o relógio. Ainda faltavam 45 minutos para o fim daquilo.
Depois de um aquecimento, a bola começa a rolar no piso de concreto.
Graças a Deus, ficara no time dos vestidos.
Assumiu sua posição de zagueiro, já que nunca conseguiria fazer um gol, e fingia interesse na partida para agradar ao treinador, sempre procurando correr até os jogadores adversários que entravam na sua área.
O gordo imbecil estava no time oposto, e era ele quem mais chegava com a bola nos pés, tentando chutá-la para o seu gol.
Mauro ficou fazendo sua parte enquanto o tempo passava, sempre evitando mostrar a pouca habilidade no jogo e torcendo para que aquilo tudo acabasse logo.
Observava o seu detestado colega se exibindo com a bola e torcia para que ele caísse com a cara no chão e quebrasse aquele nariz achatado.
Quero ver seu sangue escorrendo por essa quadra e uma ambulância tendo que vir recolher seu corpo imenso e flácido. Bem que você podia tentar fazer um gol de bicicleta e cair de cabeça nesse chão duro e áspero, ficar em coma e não acordar nunca mais.
Enquanto dava de comer a mais esses sentimentos, o tempo foi passando. Mas nos últimos minutos do jogo, o inimigo veio correndo em sua direção, empurrando a bola com os pés, sacudindo todo aquele corpo gigante e mole, e já calculando com o canto dos olhos o chute necessário para marcar o gol. Veio como uma rocha despencando montanha abaixo, sem nenhum jogador adversário para lhe impedir, e ao time restou depositar as esperanças em Mauro, para que ele fizesse um improvável drible e evitasse o chute ao gol.
O franzino estudante, vendo-se naquela situação, sentiu-se maior, vislumbrando a possibilidade de ser um pouco mais respeitado pelos colegas e notado pelas meninas. Então adiantou-se para a bola, e desajeitadamente meteu o pé com toda a agressividade, sem nem saber para onde, assim que o bólido chegava com força total em seu campo de ação.
Os dois corpos chocaram-se, ossos contra ossos, como uma colisão frontal de dois trens em alta velocidade, e ambos foram levados ao chão.
Tudo escureceu por um momento.
Mauro só viu o piso sujo da quadra e alguns tênis correndo em sua direção.
Um apito gritou ao longe, indicando que o treinador finalizara o jogo.
O garoto estava sem saber se havia sido o herói da partida ou se, mais uma vez, atrapalhara seu próprio time.
Quando a gritaria começou a fazer sentido, identificou as primeiras palavras logo após o seu lance.
—Seu filho da ...!
Era a voz dele, do valentão.
Vinha raivoso, com o punho fechado. Mauro permanecia deitado no chão, e os nódulos dos dedos gordos do antagonista se aproximaram em câmera lenta.
Sentiu uma pancada na boca e seus próprios dentes se encarregaram de lhe cortar a gengiva. Um gosto de metal surgiu na mesma hora e o mundo ficou mais escuro quando o enorme corpo do colega veio sobre o dele.
O gordo tentava soltar-se das mãos dos amigos para esganá-lo, e bradava em fúria:
—Seu inútil! Se não sabe jogar, fique no banco!
O treinador havia corrido até o local da confusão, pedindo calma a todos.
—Foi ele que se enfiou na minha frente e me derrubou! — disse o retardado.
Com o apito na boca, o professor apenas fitou o acusado, depois dispensou a turma e gritou para que todos ouvissem:
—Na quarta-feira vamos jogar vôlei. Não vou querer ninguém parado!
E todos se dispersaram.
Mauro voltou para casa andando sozinho pela rua, ferido, imaginando-se forte como o Super-Homem, desferindo um potente e mortífero soco no rosto do inimigo.
Os ossos da face dilacerando-se debaixo da minha mão, a pele dele sendo rasgada e abrindo uma vertente de sangue. Outro golpe duro na sua cabeça, e mais outro a fraturar-lhe o crânio. Caído ao chão, uma série de meus potentes pontapés atingiria as costas dele, quebrando-lhe as vértebras para que nunca mais pudesse voltar a andar.
Quando chegou em casa, foi recebido pela mãe com um beijo.
Ele fez cara feia e disse “saco” ao limpar o rosto.
—Como foi a aula, querido?
—Bem — disse, seco.
Almoçava pensando no que o desgraçado devia estar comendo àquela hora.
Espero que coma esterco. Ou então alguma coisa estragada. Vidro moído. Seu estômago explodindo e o sangue saindo pela boca e outros orifícios.
—Aprendeu alguma coisa legal hoje, filho?
Esse garfo sendo enfiado no olho dele, até o cabo...
—A gente sempre aprende, mãe.
E dirigiu-se às sombras do seu quarto, para cultivar seus pensamentos de morte.
Podia-se ler, em letras marrons, ao lado da figura de alguns mártires:
“Durante o Império Romano os cristãos foram constantemente perseguidos. A eles foram infligidas várias práticas de tortura e morte, como a crucifixação e o apedrejamento, além de serem fervidos no óleo quente ou devorados, nas arenas, por leões ou outras feras”.
Eram ótimas ideias, pensou o leitor.
Daria tudo para vê-lo ardendo. As terríveis bolhas se formando por toda a pele. A sua cara de assombro antes de cair no óleo. Antes disso, seu desespero pelo caminho até lá, quando o levavam em uma jaula sobre rodas e todo o povo lhe cuspindo e atirando pedras. Eu mesmo queria ser o carrasco a atirá-lo no caldeirão.
Folheando o livro mais um pouco, surgiram outras páginas interessantes, mas atraiu-lhe a atenção o capítulo sobre a II Guerra Mundial.
Deteve-se sobre outra imagem, agora a fotografia em preto e branco de uma fila de judeus magros e carecas, vestindo largas roupas listradas.
“O campo de Auschwitz era equipado com quatro crematórios e câmaras de gás, construídas com o objetivo de exterminar os prisioneiros”, dizia a legenda da fotografia.
O leitor continuava a fantasiar.
Imagino que satisfação eu teria em vê-lo caminhando rumo à morte, quando ele sentisse o cheiro de carne queimada das outras vítimas saindo pela fumaça escura das chaminés. E depois, quando já estivesse trancado no falso lavatório, o gás venenoso começaria a ser expelido pelos canos e ele gritaria, tentaria correr no meio de centenas de outros desesperados, e agonizaria lentamente caído ao chão, babando espuma e esperneando de uma forma patética.
Ficou olhando as outras fotos daquelas páginas, com várias cenas tristes de campos de concentração nazistas.
Observava o livro um tanto satisfeito, mas de certa forma perplexo com a própria crueldade de sua imaginação.
Continuou pensando consigo mesmo sobre o porquê de, na História, alguns terem ficado marcados como bons e outros como maus, até que um irritante tilintar metálico soou no fundo de seus tímpanos.
Era o sinal anunciando o fim do recreio.
Segunda-feira era sempre o pior dia da semana no Ensino Médio.
Começava com duas aulas seguidas de História, tendo a professora mais boçal da Terra. Depois vinham mais ciquenta terríveis minutos de Matemática, e finalmente o intervalo.
Esse era o momento em que dezenas de adolescentes ficavam jogando futebol na quadra de esportes, ou então beijando-se encostados nos muros, ou ainda fumando escondidos nos cantos mais invisíveis.
Mas ele não se encaixava em nenhuma dessas opções. Estava sozinho, sentado no chão, já estudando para a prova da próxima semana, e procurando parecer indiferente aos gritos dos alunos que corriam pelo pátio.
Assim que ouviu o sinal, levantou-se, limpou o pó das calças e caminhou lentamente até o corredor, sendo várias vezes empurrado, no trajeto, por alunos maiores que passavam apressados.
Foi o primeiro da turma a regressar à sala vazia, e sentou-se calmamente em sua carteira.
Logo depois começavam a entrar algumas meninas e meninos, mas só a metade ia para seus lugares a fim de aguardar a professora. O resto ficava em pé, ainda com os lanches nas mãos e continuando o bate papo sobre algum campeonato de futebol ou a respeito da garota da outra série que havia ficado com alguém na festa de sábado.
Ninguém parava para conversar com ele.
Sem mais o que fazer e tentando fugir daquele ambiente hostil, voltou a enterrar os olhos e os óculos sobre um dos seus livros que estavam na mochila.
Ciências.
Havia um trabalho para ser entregue dali a dois dias.
Abriu as páginas ao acaso e encontrou um texto sobre a aranha marrom.
“Sem o tratamento da picada, o veneno pode causar necrose do tecido atingido, falência renal e, em alguns casos, morte”.
Logo abaixo aparecia uma nauseante fotografia da mão de uma pessoa picada. A pele havia ficado preta, numa imensa chaga aberta, com raras chances de voltar a ser um membro normal.
Espero que existam muitas dessas aranhas em sua casa, no meio de seus lençóis, seu cretino.
Remoía os frequentes pensamentos de ódio, quando foi surpreendido por um doloroso tapa em sua cabeça, que fez os cabelos se espalharem pela testa. O golpe vinha daquela mão gorda e suada do bastardo que merecia estar morto.
Ele estava parado em pé atrás da carteira. Sorria como um débil mental, com seu rosto redondo, cabelos raspados e os dentes da frente separados. Mais uma vez o covarde lhe golpeara pelas costas, na frente dos outros, só para se mostrar para as meninas. E as burras ainda davam risinhos quando ele as olhava.
—E aí, babacão? — falou com aquele ganido esgoelado de pré-adolescente, num meio termo entre voz de menino e de menina. Parecia estar sempre berrando, querendo mostrar ao mundo que estava “virando homem” com aquela voz de taquara rachada.
Achegou-se perto do cangote da vítima.
—Não se esqueça de colocar o meu nome no trabalho para quarta-feira.
Vinha um péssimo hálito de sua boca.
—Já sabe o que vai acontecer se não colocar, não é?
E desferiu um soco em seu braço, logo abaixo do ombro.
A dor foi aguda, porque já havia sido golpeado ali há alguns dias, e o hematoma ainda nem tinha se desmanchado.
Os alunos terminavam de chegar à sala, acompanhados pela professora de Português, que entrou e fechou a porta.
O monstro dirigiu-se ao seu lugar, nos fundos, e deixou o menino de óculos sozinho com suas dores e humilhações.
Esse filho de uma cadela vai ver só por fazer essas coisas comigo! Ele me paga! Idiota, babaca, merdão. Eu vou matá-lo, eu sei disso. Vou enfiar esse livro na boca dele, depois pisotear aquela cara de mongolóide, imbecil, vou te dar um tiro na cabeça, estraçalhar esse rosto...
A professora deu início à chamada e logo passou à lição.
Leria um texto sobre Mitologia, e a tarefa dos alunos era reescrevê-lo no caderno.
“...o Minotauro era um ser que tinha corpo de homem e a cabeça de touro. Vivia em um labirinto, e anualmente eram enviados sete moços e sete moças para servirem de sacrifício à criatura”.
Aquele gordo imbecil dentro do labirinto, tremendo as pernas, se borrando de medo. O monstro aparece atrás dele, com seus chifres pontudos, segurando um machado afiado, e desfere um golpe que arranca aquela cabeça redonda e esguicha sangue por toda a parede...
—Mauro, está distraído? — pergunta a professora.
Toda a turma joga os olhares sobre ele, e alguns risinhos correm pelo ar.
A cara fechada ficou mais quente e mais vermelha, quase a ponto de explodir.
Teve que pedir desculpas e dizer que sim, estava prestando atenção.
E o pior do dia ainda nem havia começado: a temível aula de Educação Física.
Daria tudo para substituir aqueles últimos tormentosos momentos da manhã de segunda-feira por agradáveis minutos no laboratório de informática. Preferia ficar até mesmo sozinho na sala de aula, estudando, adiantando as lições. Mas não tinha jeito: era obrigado a dirigir-se ao ginásio, junto com os outros, e prestar-se à humilhação de correr e a fazer parte de um time no qual ninguém o queria.
Não suportava ver aquele bando de adolescentes felizes com a última aula do dia, quando aquilo para ele era o ápice do inferno, quando todos ficavam reparando em seu corpo engraçado e rindo da sua pouca habilidade em qualquer tipo de esporte.
Seu maior medo era o de que tivesse que fazer parte da equipe dos sem camisa. Se fosse obrigado a ficar com o peito nu, fingiria um ataque cardíaco para evitar o constrangimento. Só o veriam sem a camiseta do uniforme caso a tirassem à força — e se isso acontecesse, nunca mais pisaria naquela escola.
Em cada início de aula de Educação Física era essa angústia. Adorava quando estava doente, porque o treinador cretino não poderia forçá-lo a jogar e o deixaria sentado no banco.
Mas hoje sua saúde estava normal, e isso significava problemas.
—Nada de choramingo: hoje quero ver você correndo atrás dessa bola! — disse o professor cabeludo, lhe apontando o indicador, quando o viu chegando ao ginásio. Quanto mais despercebido queria passar, mais era chamado para o centro da atenção de todos.
Mal começara a aula e ele já olhava o relógio. Ainda faltavam 45 minutos para o fim daquilo.
Depois de um aquecimento, a bola começa a rolar no piso de concreto.
Graças a Deus, ficara no time dos vestidos.
Assumiu sua posição de zagueiro, já que nunca conseguiria fazer um gol, e fingia interesse na partida para agradar ao treinador, sempre procurando correr até os jogadores adversários que entravam na sua área.
O gordo imbecil estava no time oposto, e era ele quem mais chegava com a bola nos pés, tentando chutá-la para o seu gol.
Mauro ficou fazendo sua parte enquanto o tempo passava, sempre evitando mostrar a pouca habilidade no jogo e torcendo para que aquilo tudo acabasse logo.
Observava o seu detestado colega se exibindo com a bola e torcia para que ele caísse com a cara no chão e quebrasse aquele nariz achatado.
Quero ver seu sangue escorrendo por essa quadra e uma ambulância tendo que vir recolher seu corpo imenso e flácido. Bem que você podia tentar fazer um gol de bicicleta e cair de cabeça nesse chão duro e áspero, ficar em coma e não acordar nunca mais.
Enquanto dava de comer a mais esses sentimentos, o tempo foi passando. Mas nos últimos minutos do jogo, o inimigo veio correndo em sua direção, empurrando a bola com os pés, sacudindo todo aquele corpo gigante e mole, e já calculando com o canto dos olhos o chute necessário para marcar o gol. Veio como uma rocha despencando montanha abaixo, sem nenhum jogador adversário para lhe impedir, e ao time restou depositar as esperanças em Mauro, para que ele fizesse um improvável drible e evitasse o chute ao gol.
O franzino estudante, vendo-se naquela situação, sentiu-se maior, vislumbrando a possibilidade de ser um pouco mais respeitado pelos colegas e notado pelas meninas. Então adiantou-se para a bola, e desajeitadamente meteu o pé com toda a agressividade, sem nem saber para onde, assim que o bólido chegava com força total em seu campo de ação.
Os dois corpos chocaram-se, ossos contra ossos, como uma colisão frontal de dois trens em alta velocidade, e ambos foram levados ao chão.
Tudo escureceu por um momento.
Mauro só viu o piso sujo da quadra e alguns tênis correndo em sua direção.
Um apito gritou ao longe, indicando que o treinador finalizara o jogo.
O garoto estava sem saber se havia sido o herói da partida ou se, mais uma vez, atrapalhara seu próprio time.
Quando a gritaria começou a fazer sentido, identificou as primeiras palavras logo após o seu lance.
—Seu filho da ...!
Era a voz dele, do valentão.
Vinha raivoso, com o punho fechado. Mauro permanecia deitado no chão, e os nódulos dos dedos gordos do antagonista se aproximaram em câmera lenta.
Sentiu uma pancada na boca e seus próprios dentes se encarregaram de lhe cortar a gengiva. Um gosto de metal surgiu na mesma hora e o mundo ficou mais escuro quando o enorme corpo do colega veio sobre o dele.
O gordo tentava soltar-se das mãos dos amigos para esganá-lo, e bradava em fúria:
—Seu inútil! Se não sabe jogar, fique no banco!
O treinador havia corrido até o local da confusão, pedindo calma a todos.
—Foi ele que se enfiou na minha frente e me derrubou! — disse o retardado.
Com o apito na boca, o professor apenas fitou o acusado, depois dispensou a turma e gritou para que todos ouvissem:
—Na quarta-feira vamos jogar vôlei. Não vou querer ninguém parado!
E todos se dispersaram.
Mauro voltou para casa andando sozinho pela rua, ferido, imaginando-se forte como o Super-Homem, desferindo um potente e mortífero soco no rosto do inimigo.
Os ossos da face dilacerando-se debaixo da minha mão, a pele dele sendo rasgada e abrindo uma vertente de sangue. Outro golpe duro na sua cabeça, e mais outro a fraturar-lhe o crânio. Caído ao chão, uma série de meus potentes pontapés atingiria as costas dele, quebrando-lhe as vértebras para que nunca mais pudesse voltar a andar.
Quando chegou em casa, foi recebido pela mãe com um beijo.
Ele fez cara feia e disse “saco” ao limpar o rosto.
—Como foi a aula, querido?
—Bem — disse, seco.
Almoçava pensando no que o desgraçado devia estar comendo àquela hora.
Espero que coma esterco. Ou então alguma coisa estragada. Vidro moído. Seu estômago explodindo e o sangue saindo pela boca e outros orifícios.
—Aprendeu alguma coisa legal hoje, filho?
Esse garfo sendo enfiado no olho dele, até o cabo...
—A gente sempre aprende, mãe.
E dirigiu-se às sombras do seu quarto, para cultivar seus pensamentos de morte.
Panelas de Ouro (L.F. Riesemberg)
Acredito que todos os professores deveriam entreter seus alunos com boas histórias. É uma forma bastante simples de lhes instigar a curiosidade e fazer com que tenham mais interesse pelas aulas. Esse caso que vou contar é um dos que fazem com que a turma toda não abra a boca e nem tire os olhos de mim enquanto falo. Geralmente aquele lindo silêncio continua reinando na classe, mesmo depois que a história termina.
No tempo da Revolução, muito antes de nossos antepassados virem morar nessas terras, era comum grupos de soldados chegarem de surpresa nas casas das famílias e levarem tudo o que quisessem. Trabalhadores simples que se recusavam a receber o exército eram considerados traidores e podiam ser presos ou até mesmo executados, ali mesmo, sem julgamento. E o pior: tudo com o aval do Governo.
Os homens sempre chegavam armados, famintos e ávidos por qualquer coisa que ajudasse na guerra. Queriam cavalos, armas, munição e ouro. Os pobres lavradores, na maioria imigrantes, acabavam tendo que entregar todas as economias de anos, que serviriam para garantir sua velhice.
Foi durante este duro período da história da nossa região que muita gente, temendo esses e outros perigos da luta armada, resolveu esconder seus pertences de maior valor. Uma prática que se tornou usual foi a de se fechar todo o ouro da família em uma panela de cozinha, e enterrá-la em algum ponto da propriedade. Ela ficaria escondida lá, debaixo do solo, até que fosse seguro desenterrá-la.
Naquela época, porém, as notícias demoravam a chegar aos pequenos vilarejos. Quando a Revolução terminou, muitos chefes de família se recusavam a acreditar, temendo ainda sofrer os efeitos da violência, e mantiveram suas riquezas debaixo da terra por muitos anos.
Alguns, inclusive, vieram a falecer, sem que mais ninguém conhecesse o local onde as panelas foram depositadas.
Essas histórias já são antigas, de muito antes de eu nascer. Mas ainda tem gente que, volta e meia, encontra uma dessas panelas no quintal de casa. O sortudo vai cavar um poço, ou plantar uma horta, e finca a enxada em uma panela recheada de ouro e prata.
Alguns casos já passaram por tantas bocas que ninguém mais sabe o que é verdade e o que é lenda dessas prosas.
Por exemplo, tem essa história de um certo Joca, que viveu aqui há muitos anos. Ele e o irmão Jeremias cresceram ouvindo histórias de que um falecido tio-avô havia enterrado pelo menos duas panelas no terreno que herdaram. Não havia provas de que existia alguma riqueza enterrada, mas mesmo depois de adultos a dupla passava todo o tempo livre cavando a terra, cada vez em um lugar diferente. Eram solteiros e moravam só os dois na mesma casa. Sempre que tinham o palpite de algum lugar iam até lá com a pá e a picareta, e ficavam até tarde da noite fazendo um buraco atrás do outro.
Na cidade já eram figuras folclóricas. Se não pagavam a conta da venda, ficavam sempre lembrando ao comerciante que era só uma questão de tempo para acertar tudo, porque logo iam achar o ouro enterrado da família. Até pediam dinheiro emprestado aos outros jurando que iam pagar em breve e com juros, porque faltava pouco para encontrar o tesouro.
A vida seguia, com toda a gente daquela comunidade trabalhando na lavoura, e criando seus filhos, até que um dia simplesmente deram pela falta de Jeremias. Procuraram por todos os cantos e nada dele. Esperaram um dia, dois dias, e ele não apareceu mais. Ele não disse nada a ninguém, apenas sumiu, sem levar quase nada.
Se no princípio Joca mostrou-se preocupado com o desaparecimento do irmão, aos poucos foi pegando uma desconfiança enorme dele, que só foi aumentando com o passar do tempo, até que o deixasse visivelmente perturbado. Dizia que, no dia do sumiço, Jeremias tinha saído escondido com as ferramentas para cavar, e não voltou mais para casa. “Esse desgranhento incontrô a panela e fugiu, pra não repartir cum ninguém. É isso o que ele aprontô”, bradava pelos cantos, principalmente quando enchia a cara no boteco.
Tentavam colocar na cabeça dele que aquela ideia era estapafúrdia, que Jeremias não teria feito aquilo. Mas ele pegava raiva de quem defendesse o irmão, e não queria nem ouvir mais o nome de Jeremias. “Num tenho irmão. Pra mim ele morreu”.
Desde então a obsessão daquele homem pelo tesouro foi ficando cada vez mais acentuada. Lembrava que eram duas as panelas enterradas pelo seu antepassado, e que por mais que Jeremias tivesse encontrado uma, a outra seria dele. A grande propriedade, que passou a ser só sua, vivia toda esburacada, graças às infrutíferas buscas pelo tesouro.
Conta-se que, já acostumados com a loucura do agricultor, dois camaradas tiveram a ideia de fazer uma brincadeira de mau gosto com ele.
O plano era enterrar uma panela em um local onde ele provavelmente cavaria em breve, e dentro dela colocar algumas moedas sem valor. Talvez até alguma coisa ridícula, como um guizo de vaca, só para ouvir mais tarde os divertidos comentários pela vila.
Arquitetavam o plano num fim de tarde, após o dia de trabalho, e para o espanto dos gozadores, quando o padre escutou a conversa resolveu ajudá-los. Ficavam imaginando a cara de bobo de quando ele finalmente encontrasse a panela e descobrisse que só tinha algumas porcarias dentro.
Mas a surpresa maior viria depois: coberto com um lençol branco, o próprio padre assustaria o coitado. Faria uma voz fúnebre para dizer que era o fantasma do tio-avô, e que Joca tinha que parar de tentar roubar suas panelas de ouro.
Aquele trio de farristas passou mais umas duas tardes bebendo juntos e bolando o plano, o que rendeu muitas risadas.
Por um momento ficaram um pouco preocupados, pois lhes passou pela cabeça: “E se ele estiver com a espingarda e der um tiro em nós?”. Mas ambos concluíram que isso era impossível. Ele não tinha mais o costume de andar armado, assim como quase ninguém daquela vila. E, mesmo que andasse, não seria problema, já que ele não enxergava direito.
“Mais isso vai ser nosso segredo”, combinaram. Não queriam que espalhassem o plano e que Joca desconfiasse da armação.
Dias depois a panela já estava enterrada no mesmo campo em que Joca ia cavar todas as tardes. O “tesouro” foi depositado no local por um dos donos da ideia original, durante uma manhã em que Joca trabalhava longe. Enterrara não muito raso, para não levantar suspeitas, e dentro colocou uma meia furada, umas bitucas de cigarro e um sapo seco. A barriga até doía de tanto rir quando fechou a tampa.
Etapa concluída, vinha a segunda parte: instigar a pobre vítima a cavar exatamente naquele lugar.
Um dos arquitetos do plano, que quase todo dia conversava com a vítima, lembrou que Joca era muito impressionável com essas coisas do outro mundo, como sonhos, adivinhações de ciganas e visagens. Então chegou para o coitado e disse que tinha visto uma aparição enquanto dormia.
— Num sei se o sinhô credita nessas coisa, mais me apareceu um véio de chapéu, a barba desse tamanho, ó, e ele tava interrando arguma coisa bem do lado daquela cerca na divisa, debaixo daquele teu pé de araçá, sabe?
Estava lançada a isca.
Joca ficou tão entretido com aquela possibilidade que mal trabalhou naquele resto de dia. Dava para notar em seu olhar que não via a hora de chegar em casa e ir até a tal árvore para cavar. Para ele, era o seu tio-avô no sonho do amigo, avisando o local que enterrara o ouro.
O gozador foi correndo contar a história para os outros dois, e torcendo para que desse tudo certo. Assim, antes das seis da tarde, os três poderiam estar a postos, no local da brincadeira, para ver a cara da vítima durante a surpresa que prepararam.
Apesar de alguns contratempos do padre, os três seguiram até o local e ficaram esperando, escondidos no meio do mato, em um ponto que podiam enxergar o local com relativa facilidade.
Ficaram lá, em silêncio, à espera do Joca, e se segurando para evitar risos altos.
O tempo ia passando, os pernilongos já começavam a incomodar, até que veio a noite e cobriu o céu de um azul bem escuro, com a lua crescente despontando bonita atrás dos pinheiros.
Eles só sussurravam uns para os outros, já conversando sobre outros assuntos, quase esquecendo os motivos de estarem ali na mata, quando ouviram barulhos no caminho.
Silenciaram imediatamente e até prenderam a respiração para que não atraíssem a desconfiança de Joca.
Os passos foram chegando mais perto, até que ficasse visível a figura do capiau carregando uma picareta. Joca deu uma mijada na cerca e depois começou a cavocar a terra, debaixo do araçá.
O trio não podia se mexer, e acabava não dando para enxergar tudo o que acontecia debaixo da árvore. Mas era possível ouvir as seguidas estocadas da ferramenta na terra, que fazia voar cascalhos até onde eles se escondiam.
Joca de vez em quando dizia umas blasfêmias, provavelmente pelas dificuldades que encontrava no serviço, e depois continuava o trabalho, sem parecer cansar. O padre era o que menos enxergava a ação do matuto em busca do tesouro e, ao invés de se divertir, foi ficando irritado, querendo logo poder fazer sua parte no plano e voltar para casa. Tinha que acordar cedo na manhã seguinte para rezar a missa.
Quando as picaretadas no chão repentinamente pararam, o trio achou que Joca tinha finalmente encontrado a panela, ou então desistido de cavar.
Sem mais tempo a perder, o padre cobriu-se com o lençol branco e começou a andar pela mata, em direção a Joca. Este, ouvindo os passos, atirou-se no imenso buraco que havia cavado.
—Ára, quem é o fio duma égua que taí no meio do mato?
O padre segurava o riso debaixo do lençol, e continuava a se aproximar, lentamente, com os braços esticados para a frente.
—Quem taííí? — gritava Joca, cada vez mais assustado, de cócoras, apenas com os olhos para fora do buraco na terra.
O padre fez uma voz diferente, fantasmagórica, e bradou:
—Joooooocaaaaaaaaa...
Nessa hora o matuto quase teve um troço e passou a rezar lá no fundo do buraco. Com o canto dos olhos, viu que se aproximava uma visagem, e não sabia se saía correndo ou se cobria-se com a terra.
—Ai, meu Jesuis... Jeremia, é você, meu irmão?
Os homens no mato e o padre vestido de fantasma começaram a ter um pouco de compaixão pelo pobre diabo. Tinham ido longe demais na brincadeira.
O fantasma ficou sem saber se revelava ali mesmo que tudo não passava de uma armação, e parou de andar.
Joca já havia sujado as calças a esta altura, e não queria nem mais abrir os olhos.
—Meu irmão, me descurpe! Eu me arrependo tanto de ter te matado! Pode ficá cum tudo o ouro, Jeremia. Mais vorte pro lugar que ocê tava! Me dêxe in paiz!
Os três companheiros que bolaram o plano só queriam sair dali e tentar esquecer aquela cena.
Toda a turma de estudantes fica em silêncio, esperando que eu continue.
Nunca demora para que o primeiro pergunte:
—A história acaba assim? O que aconteceu com o tal Joca? Foi preso? Ficou louco?
Nesse ponto eu sempre caminho lentamente até o autor da pergunta.
—Não, é claro que não termina assim. Mas acho que ninguém ia acreditar no que dizem...
—Ah, conta logo, professor!
— Ta bem, você pediu. A história termina assim: o tal Joca não passa dessa noite, pois rasga o pescoço com uma faca assim que chega em casa. Remoídos pela culpa, os três que aprontaram a brincadeira acabam contando tudo o que aconteceu naquela noite.
Depois disso, eles e outras pessoas passaram o resto da vida jurando que, toda vez que chegavam perto da propriedade dos dois irmãos, viam um velho de aspecto horrível, todo descabelado e com as roupas cobertas de sangue, cavando buracos com as próprias mãos no meio do mato. Não sei se vocês sabem, mas o terreno deles era exatamente aqui, onde nossa escola foi construída.
Mais silêncio, ou então alguns risos irônicos na sala.
—Portanto, se algum dia vocês começarem a notar algum barulho estranho por aí, ou se encontrarem buracos na terra, podem desconfiar: deve ser o fantasma do velho Joca, ainda atrás das suas panelas de ouro enterradas no chão.
No tempo da Revolução, muito antes de nossos antepassados virem morar nessas terras, era comum grupos de soldados chegarem de surpresa nas casas das famílias e levarem tudo o que quisessem. Trabalhadores simples que se recusavam a receber o exército eram considerados traidores e podiam ser presos ou até mesmo executados, ali mesmo, sem julgamento. E o pior: tudo com o aval do Governo.
Os homens sempre chegavam armados, famintos e ávidos por qualquer coisa que ajudasse na guerra. Queriam cavalos, armas, munição e ouro. Os pobres lavradores, na maioria imigrantes, acabavam tendo que entregar todas as economias de anos, que serviriam para garantir sua velhice.
Foi durante este duro período da história da nossa região que muita gente, temendo esses e outros perigos da luta armada, resolveu esconder seus pertences de maior valor. Uma prática que se tornou usual foi a de se fechar todo o ouro da família em uma panela de cozinha, e enterrá-la em algum ponto da propriedade. Ela ficaria escondida lá, debaixo do solo, até que fosse seguro desenterrá-la.
Naquela época, porém, as notícias demoravam a chegar aos pequenos vilarejos. Quando a Revolução terminou, muitos chefes de família se recusavam a acreditar, temendo ainda sofrer os efeitos da violência, e mantiveram suas riquezas debaixo da terra por muitos anos.
Alguns, inclusive, vieram a falecer, sem que mais ninguém conhecesse o local onde as panelas foram depositadas.
Essas histórias já são antigas, de muito antes de eu nascer. Mas ainda tem gente que, volta e meia, encontra uma dessas panelas no quintal de casa. O sortudo vai cavar um poço, ou plantar uma horta, e finca a enxada em uma panela recheada de ouro e prata.
Alguns casos já passaram por tantas bocas que ninguém mais sabe o que é verdade e o que é lenda dessas prosas.
Por exemplo, tem essa história de um certo Joca, que viveu aqui há muitos anos. Ele e o irmão Jeremias cresceram ouvindo histórias de que um falecido tio-avô havia enterrado pelo menos duas panelas no terreno que herdaram. Não havia provas de que existia alguma riqueza enterrada, mas mesmo depois de adultos a dupla passava todo o tempo livre cavando a terra, cada vez em um lugar diferente. Eram solteiros e moravam só os dois na mesma casa. Sempre que tinham o palpite de algum lugar iam até lá com a pá e a picareta, e ficavam até tarde da noite fazendo um buraco atrás do outro.
Na cidade já eram figuras folclóricas. Se não pagavam a conta da venda, ficavam sempre lembrando ao comerciante que era só uma questão de tempo para acertar tudo, porque logo iam achar o ouro enterrado da família. Até pediam dinheiro emprestado aos outros jurando que iam pagar em breve e com juros, porque faltava pouco para encontrar o tesouro.
A vida seguia, com toda a gente daquela comunidade trabalhando na lavoura, e criando seus filhos, até que um dia simplesmente deram pela falta de Jeremias. Procuraram por todos os cantos e nada dele. Esperaram um dia, dois dias, e ele não apareceu mais. Ele não disse nada a ninguém, apenas sumiu, sem levar quase nada.
Se no princípio Joca mostrou-se preocupado com o desaparecimento do irmão, aos poucos foi pegando uma desconfiança enorme dele, que só foi aumentando com o passar do tempo, até que o deixasse visivelmente perturbado. Dizia que, no dia do sumiço, Jeremias tinha saído escondido com as ferramentas para cavar, e não voltou mais para casa. “Esse desgranhento incontrô a panela e fugiu, pra não repartir cum ninguém. É isso o que ele aprontô”, bradava pelos cantos, principalmente quando enchia a cara no boteco.
Tentavam colocar na cabeça dele que aquela ideia era estapafúrdia, que Jeremias não teria feito aquilo. Mas ele pegava raiva de quem defendesse o irmão, e não queria nem ouvir mais o nome de Jeremias. “Num tenho irmão. Pra mim ele morreu”.
Desde então a obsessão daquele homem pelo tesouro foi ficando cada vez mais acentuada. Lembrava que eram duas as panelas enterradas pelo seu antepassado, e que por mais que Jeremias tivesse encontrado uma, a outra seria dele. A grande propriedade, que passou a ser só sua, vivia toda esburacada, graças às infrutíferas buscas pelo tesouro.
Conta-se que, já acostumados com a loucura do agricultor, dois camaradas tiveram a ideia de fazer uma brincadeira de mau gosto com ele.
O plano era enterrar uma panela em um local onde ele provavelmente cavaria em breve, e dentro dela colocar algumas moedas sem valor. Talvez até alguma coisa ridícula, como um guizo de vaca, só para ouvir mais tarde os divertidos comentários pela vila.
Arquitetavam o plano num fim de tarde, após o dia de trabalho, e para o espanto dos gozadores, quando o padre escutou a conversa resolveu ajudá-los. Ficavam imaginando a cara de bobo de quando ele finalmente encontrasse a panela e descobrisse que só tinha algumas porcarias dentro.
Mas a surpresa maior viria depois: coberto com um lençol branco, o próprio padre assustaria o coitado. Faria uma voz fúnebre para dizer que era o fantasma do tio-avô, e que Joca tinha que parar de tentar roubar suas panelas de ouro.
Aquele trio de farristas passou mais umas duas tardes bebendo juntos e bolando o plano, o que rendeu muitas risadas.
Por um momento ficaram um pouco preocupados, pois lhes passou pela cabeça: “E se ele estiver com a espingarda e der um tiro em nós?”. Mas ambos concluíram que isso era impossível. Ele não tinha mais o costume de andar armado, assim como quase ninguém daquela vila. E, mesmo que andasse, não seria problema, já que ele não enxergava direito.
“Mais isso vai ser nosso segredo”, combinaram. Não queriam que espalhassem o plano e que Joca desconfiasse da armação.
Dias depois a panela já estava enterrada no mesmo campo em que Joca ia cavar todas as tardes. O “tesouro” foi depositado no local por um dos donos da ideia original, durante uma manhã em que Joca trabalhava longe. Enterrara não muito raso, para não levantar suspeitas, e dentro colocou uma meia furada, umas bitucas de cigarro e um sapo seco. A barriga até doía de tanto rir quando fechou a tampa.
Etapa concluída, vinha a segunda parte: instigar a pobre vítima a cavar exatamente naquele lugar.
Um dos arquitetos do plano, que quase todo dia conversava com a vítima, lembrou que Joca era muito impressionável com essas coisas do outro mundo, como sonhos, adivinhações de ciganas e visagens. Então chegou para o coitado e disse que tinha visto uma aparição enquanto dormia.
— Num sei se o sinhô credita nessas coisa, mais me apareceu um véio de chapéu, a barba desse tamanho, ó, e ele tava interrando arguma coisa bem do lado daquela cerca na divisa, debaixo daquele teu pé de araçá, sabe?
Estava lançada a isca.
Joca ficou tão entretido com aquela possibilidade que mal trabalhou naquele resto de dia. Dava para notar em seu olhar que não via a hora de chegar em casa e ir até a tal árvore para cavar. Para ele, era o seu tio-avô no sonho do amigo, avisando o local que enterrara o ouro.
O gozador foi correndo contar a história para os outros dois, e torcendo para que desse tudo certo. Assim, antes das seis da tarde, os três poderiam estar a postos, no local da brincadeira, para ver a cara da vítima durante a surpresa que prepararam.
Apesar de alguns contratempos do padre, os três seguiram até o local e ficaram esperando, escondidos no meio do mato, em um ponto que podiam enxergar o local com relativa facilidade.
Ficaram lá, em silêncio, à espera do Joca, e se segurando para evitar risos altos.
O tempo ia passando, os pernilongos já começavam a incomodar, até que veio a noite e cobriu o céu de um azul bem escuro, com a lua crescente despontando bonita atrás dos pinheiros.
Eles só sussurravam uns para os outros, já conversando sobre outros assuntos, quase esquecendo os motivos de estarem ali na mata, quando ouviram barulhos no caminho.
Silenciaram imediatamente e até prenderam a respiração para que não atraíssem a desconfiança de Joca.
Os passos foram chegando mais perto, até que ficasse visível a figura do capiau carregando uma picareta. Joca deu uma mijada na cerca e depois começou a cavocar a terra, debaixo do araçá.
O trio não podia se mexer, e acabava não dando para enxergar tudo o que acontecia debaixo da árvore. Mas era possível ouvir as seguidas estocadas da ferramenta na terra, que fazia voar cascalhos até onde eles se escondiam.
Joca de vez em quando dizia umas blasfêmias, provavelmente pelas dificuldades que encontrava no serviço, e depois continuava o trabalho, sem parecer cansar. O padre era o que menos enxergava a ação do matuto em busca do tesouro e, ao invés de se divertir, foi ficando irritado, querendo logo poder fazer sua parte no plano e voltar para casa. Tinha que acordar cedo na manhã seguinte para rezar a missa.
Quando as picaretadas no chão repentinamente pararam, o trio achou que Joca tinha finalmente encontrado a panela, ou então desistido de cavar.
Sem mais tempo a perder, o padre cobriu-se com o lençol branco e começou a andar pela mata, em direção a Joca. Este, ouvindo os passos, atirou-se no imenso buraco que havia cavado.
—Ára, quem é o fio duma égua que taí no meio do mato?
O padre segurava o riso debaixo do lençol, e continuava a se aproximar, lentamente, com os braços esticados para a frente.
—Quem taííí? — gritava Joca, cada vez mais assustado, de cócoras, apenas com os olhos para fora do buraco na terra.
O padre fez uma voz diferente, fantasmagórica, e bradou:
—Joooooocaaaaaaaaa...
Nessa hora o matuto quase teve um troço e passou a rezar lá no fundo do buraco. Com o canto dos olhos, viu que se aproximava uma visagem, e não sabia se saía correndo ou se cobria-se com a terra.
—Ai, meu Jesuis... Jeremia, é você, meu irmão?
Os homens no mato e o padre vestido de fantasma começaram a ter um pouco de compaixão pelo pobre diabo. Tinham ido longe demais na brincadeira.
O fantasma ficou sem saber se revelava ali mesmo que tudo não passava de uma armação, e parou de andar.
Joca já havia sujado as calças a esta altura, e não queria nem mais abrir os olhos.
—Meu irmão, me descurpe! Eu me arrependo tanto de ter te matado! Pode ficá cum tudo o ouro, Jeremia. Mais vorte pro lugar que ocê tava! Me dêxe in paiz!
Os três companheiros que bolaram o plano só queriam sair dali e tentar esquecer aquela cena.
Toda a turma de estudantes fica em silêncio, esperando que eu continue.
Nunca demora para que o primeiro pergunte:
—A história acaba assim? O que aconteceu com o tal Joca? Foi preso? Ficou louco?
Nesse ponto eu sempre caminho lentamente até o autor da pergunta.
—Não, é claro que não termina assim. Mas acho que ninguém ia acreditar no que dizem...
—Ah, conta logo, professor!
— Ta bem, você pediu. A história termina assim: o tal Joca não passa dessa noite, pois rasga o pescoço com uma faca assim que chega em casa. Remoídos pela culpa, os três que aprontaram a brincadeira acabam contando tudo o que aconteceu naquela noite.
Depois disso, eles e outras pessoas passaram o resto da vida jurando que, toda vez que chegavam perto da propriedade dos dois irmãos, viam um velho de aspecto horrível, todo descabelado e com as roupas cobertas de sangue, cavando buracos com as próprias mãos no meio do mato. Não sei se vocês sabem, mas o terreno deles era exatamente aqui, onde nossa escola foi construída.
Mais silêncio, ou então alguns risos irônicos na sala.
—Portanto, se algum dia vocês começarem a notar algum barulho estranho por aí, ou se encontrarem buracos na terra, podem desconfiar: deve ser o fantasma do velho Joca, ainda atrás das suas panelas de ouro enterradas no chão.
No bordel, depois da meia-noite (L.F. Riesemberg)
Mais um homem adentra a alcova. Aguardava-o uma rapariga de cabelos louros, usando peças de lingerie e uma echarpe vermelha.
O homem a observa, interessa-se e despeja algumas moedas de prata sobre o leito. Ela fecha a porta e o casal fica a sós no ambiente à meia luz.
— Quanto tempo eu tenho?
A dama conta as moedas e, enquanto as guarda na gaveta da penteadeira, ainda sem olhar nos olhos do novo cliente, responde com indiferença:
— A noite toda.
O homem sorri, livra-se do chapéu e dos sapatos, e atira-se sobre os lençóis.
Deitado, percebe que o vinho já consumido faz efeito. Continua a não tirar os olhos da moça e, enquanto ela despe-se, ele começa a prestar mais atenção naquela jovem senhora. O rosto, apesar de maquiado, não disfarça a palidez e as olheiras. Observando com cuidado, havia alguns pequenos hematomas sobre seu corpo decadente e flácido. Os olhos azuis vidrados sugerem exprimir não exatamente tristeza, nem vergonha. Parecem simplesmente ter perdido um brilho de outrora, o que os deixou turvos, sem emoção, sem vida.
O rapaz não pôde deixar de sentir certa compaixão pela rapariga e culpa por estar ali, o que é terrível para a profissão dela. E essa constatação o deprimia ainda mais.
Alimentando-se com aqueles pensamentos a respeito da moça, resolveu experimentar algo diferente naquela noite.
— O que você faz?
A moça, ainda sem muitas alterações na face e tirando a última peça de roupa, responde baixo:
— Tudo o que o senhor quiser.
O rapaz ajeita-se na cama, recostando-se sobre as almofadas, e a chama para que deite-se ao seu lado.
— Então eu só quero ouvir. Quero que conte-me sua história, de como veio parar neste lugar.
Depois de recusas dela e alguma insistência dele, a moça chora. Ela não deveria conversar com um estranho, mas também não quer causar problemas para a casa. Em um beco sem saída, resolve, como todos os dias, submeter-se à realidade da situação e aceita satisfazer a vontade do homem deitado na cama.
Assim começa o relato.
Quando menina, vivi em uma luxuosa mansão na cidade. Órfã de mãe, sentia-me fortemente presa aos laços paternos. Meu pai sempre procurava para mim o melhor partido para um futuro casamento.
Entre os bailes que dava em casa, conheci um homem muito belo, por quem fiquei completamente caída. Não me disse seu nome, ou de onde vinha. Nada! Apenas me enfeitiçou pelo seu olhar, e tudo o que eu queria era estar sempre com ele, só com ele.
— Ah, sempre os homens! Esses lobos desgraçados — interrompeu o cliente.
Desculpando-se pela intromissão inoportuna, pediu que a dama continuasse a história.
Nunca soube de onde veio. Simplesmente apareceu.
Sem precisar de palavras, compreendi toda sua paixão, todo o desejo no olhar daquela criatura perfeita. E na minha febre adolescente isso também me fez desejá-lo, cada vez mais.
Sem que meu pai desconfiasse, comecei a encontrá-lo fora de casa. Passei a mentir só para estar junto dele e sentir a força de seus braços envolvendo meu corpo.
Nem ao menos tive culpa por estar perdendo a inocência de uma forma tão vil, tão em desacordo com o que minha mãezinha me ensinou, que Deus a tenha.
Quando eu estava com aquele homem, nada mais me importava ...
Ele beijava-me e a cada beijo os arrepios estremeciam-me. No terceiro encontro eu já estava totalmente entregue àquele misterioso rapaz. Às vezes ele beijava-me na nuca, no pescoço, sempre levando-me ao delírio.
Quando eu já estava perdidamente apaixonada, fiquei a ponto de aceitar o pedido mais sujo que ele fizesse...
A primeira vez foi no clube de campo. Era uma festa de aniversário, e em certo momento consegui ficar sozinha com ele. Estávamos tendo mais um momento de carícias e foi nessa hora que ele tentou, e eu não pude resistir. Seu beijo era tão doce, e ele todo era tão encantador! Causava-me arrepios seu hálito morno em minha pele, e o diabo permanecia ali, cheirando-me, mordiscando... Eu quase desmaiava de prazer, e nem notei quando ele colocou os dentes, nem quando meu sangue quente começou a escorrer para sua boca.
Não saberia dizer por quanto tempo ele permaneceu ali, sugando-me, enquanto eu estava paralisada, num misto de prazer e dor, até que ele se saciasse antes que eu perdesse os sentidos.
Neste ponto do relato o homem que ouvia a história salta os olhos e começa a prestar ainda mais atenção à história.
Naquele dia deixou-me quase inconsciente e foi embora, sem dizer uma palavra. Aquilo que ele fez deixou-me um pouco assustada na hora, mas depois senti-me estranhamente bem, mais presa a ele.
Nos dias seguintes fiquei um pouco abatida, talvez por querê-lo outra vez ao meu lado, talvez por ele ter levado um pouco de minha energia. Esforcei-me para evitar a visita de um médico, fingindo saúde e disfarçando as marcas do pescoço.
Depois de uma semana, quando já havia ardido em febre à sua espera, e sem poder contar a ninguém a minha história de amor louco, ele surgiu no meio da noite em minha janela, olhando-me fixamente através do vitral. Era muito sedutor, e não tive dúvida alguma: deixei que entrasse, e permiti que se saciasse mais uma vez.
Desta vez a dor foi menor, e pude aproveitar mais as sensações indescritíveis que me proporcionava. Enquanto ele tinha os dentes em mim era como se fôssemos um só, e era assim que eu queria estar: ligada a ele, para todo o sempre.
Depois disso, passei a deixar a janela aberta todas as noites. Ele vinha, envolvia-me e juntos deleitávamo-nos em meu quarto até muito tarde. Se meu pescoço doía, ele procurava outras partes do meu frágil corpo para saciar-se, e cada nova descoberta era um prazer imenso para ambos. Foram noites mágicas aquelas...
Durante os dias, eu já não tinha mais fome. E por passar as noites em claro, passei a dormir de dia. Na época meu pai viajava e não estava lá para notar minha palidez, minhas olheiras, minhas unhas roxas, minha fraqueza.
Porém, certa noite em que recebi o visitante e já não tomava os devidos cuidados para não ser flagrada, meu pai apareceu de surpresa no quarto. Já devia desconfiar de que algo ia errado com sua filha.
Pobrezinho...
Ficou totalmente perturbado ao ver-me, em sua própria casa, nos braços de um homem. Eu costumava ver sua bonequinha, e num piscar de olhos era uma corrompida. Furioso, passou a blasfemar e a me bater enquanto perguntava quem era o bastardo covarde que acabava de fugir pela janela. “Desgraçou-me a vida”, ele gritava, aos prantos, dizendo que me matava por isso.
Apesar de amar meu pai, não pude ouvir aquelas ofensas, e defendi com unhas e dentes o homem que tanto me encantava. Em minha ânsia adolescente, reneguei tudo o que eu recebera da minha família, inclusive meu nome, meu sangue.
Foi a noite em que deixei minha casa
Desamparada, sozinha pelas ruas, fui à procura daquele a quem eu havia entregue meu coração. Mas ele me decepcionou. Encontrei-o ao lado de outra e ainda assim fui até lá, humilhei-me, caí de joelhos, disse que tinha desistido da vida por ele...
Tudo em vão.
Fui deixada à própria sorte, abatida, fraca, sem a mesma beleza de antes, sem um lar onde viver. Bati de porta em porta, procurando uma casa para ficar, até ser acolhida pela gentil senhora dona desta casa de meninas. Senti um pouco de repulsa no início, mas já me acostumei aqui e com toda essa gente que vem atrás do pouco que resta da minha juventude e beleza.
O cliente continuou calado depois do final da história, pensando em tudo o que acabara de ouvir.
Agora diga-me, continuou a rapariga. O que devo pensar de um ser que faz isso com outra pessoa?Por que ele não me matou logo no começo? Aquele covarde...
Eu sei, uma grande tola é o que fui. Então que ao menos eu sirva de exemplo para outras meninas ingênuas que caem na conversa desse tipo de monstro...
O homem ao seu lado continuava pensativo.
—Olha, moça, você não deveria ficar contando essas coisas para qualquer estranho, sabia disso?
— Por que? Só não me atirei da ponte para não ir direto ao inferno, porque falta apenas isso para coroar minha desgraça. E você acha que realmente me preocupo por não acreditarem em mim? Por dizerem-me louca?
O homem a tomou em seus braços e sussurrou aos seus ouvidos. Isso não me importa, madame. Mas me preocupo com outra coisa...
Enquanto afagava os cabelos da dama, ele lambeu as pontas dos próprios caninos e chegou mais perto de seu pescoço.
...é com nossa reputação, minha cara.
O homem a observa, interessa-se e despeja algumas moedas de prata sobre o leito. Ela fecha a porta e o casal fica a sós no ambiente à meia luz.
— Quanto tempo eu tenho?
A dama conta as moedas e, enquanto as guarda na gaveta da penteadeira, ainda sem olhar nos olhos do novo cliente, responde com indiferença:
— A noite toda.
O homem sorri, livra-se do chapéu e dos sapatos, e atira-se sobre os lençóis.
Deitado, percebe que o vinho já consumido faz efeito. Continua a não tirar os olhos da moça e, enquanto ela despe-se, ele começa a prestar mais atenção naquela jovem senhora. O rosto, apesar de maquiado, não disfarça a palidez e as olheiras. Observando com cuidado, havia alguns pequenos hematomas sobre seu corpo decadente e flácido. Os olhos azuis vidrados sugerem exprimir não exatamente tristeza, nem vergonha. Parecem simplesmente ter perdido um brilho de outrora, o que os deixou turvos, sem emoção, sem vida.
O rapaz não pôde deixar de sentir certa compaixão pela rapariga e culpa por estar ali, o que é terrível para a profissão dela. E essa constatação o deprimia ainda mais.
Alimentando-se com aqueles pensamentos a respeito da moça, resolveu experimentar algo diferente naquela noite.
— O que você faz?
A moça, ainda sem muitas alterações na face e tirando a última peça de roupa, responde baixo:
— Tudo o que o senhor quiser.
O rapaz ajeita-se na cama, recostando-se sobre as almofadas, e a chama para que deite-se ao seu lado.
— Então eu só quero ouvir. Quero que conte-me sua história, de como veio parar neste lugar.
Depois de recusas dela e alguma insistência dele, a moça chora. Ela não deveria conversar com um estranho, mas também não quer causar problemas para a casa. Em um beco sem saída, resolve, como todos os dias, submeter-se à realidade da situação e aceita satisfazer a vontade do homem deitado na cama.
Assim começa o relato.
Quando menina, vivi em uma luxuosa mansão na cidade. Órfã de mãe, sentia-me fortemente presa aos laços paternos. Meu pai sempre procurava para mim o melhor partido para um futuro casamento.
Entre os bailes que dava em casa, conheci um homem muito belo, por quem fiquei completamente caída. Não me disse seu nome, ou de onde vinha. Nada! Apenas me enfeitiçou pelo seu olhar, e tudo o que eu queria era estar sempre com ele, só com ele.
— Ah, sempre os homens! Esses lobos desgraçados — interrompeu o cliente.
Desculpando-se pela intromissão inoportuna, pediu que a dama continuasse a história.
Nunca soube de onde veio. Simplesmente apareceu.
Sem precisar de palavras, compreendi toda sua paixão, todo o desejo no olhar daquela criatura perfeita. E na minha febre adolescente isso também me fez desejá-lo, cada vez mais.
Sem que meu pai desconfiasse, comecei a encontrá-lo fora de casa. Passei a mentir só para estar junto dele e sentir a força de seus braços envolvendo meu corpo.
Nem ao menos tive culpa por estar perdendo a inocência de uma forma tão vil, tão em desacordo com o que minha mãezinha me ensinou, que Deus a tenha.
Quando eu estava com aquele homem, nada mais me importava ...
Ele beijava-me e a cada beijo os arrepios estremeciam-me. No terceiro encontro eu já estava totalmente entregue àquele misterioso rapaz. Às vezes ele beijava-me na nuca, no pescoço, sempre levando-me ao delírio.
Quando eu já estava perdidamente apaixonada, fiquei a ponto de aceitar o pedido mais sujo que ele fizesse...
A primeira vez foi no clube de campo. Era uma festa de aniversário, e em certo momento consegui ficar sozinha com ele. Estávamos tendo mais um momento de carícias e foi nessa hora que ele tentou, e eu não pude resistir. Seu beijo era tão doce, e ele todo era tão encantador! Causava-me arrepios seu hálito morno em minha pele, e o diabo permanecia ali, cheirando-me, mordiscando... Eu quase desmaiava de prazer, e nem notei quando ele colocou os dentes, nem quando meu sangue quente começou a escorrer para sua boca.
Não saberia dizer por quanto tempo ele permaneceu ali, sugando-me, enquanto eu estava paralisada, num misto de prazer e dor, até que ele se saciasse antes que eu perdesse os sentidos.
Neste ponto do relato o homem que ouvia a história salta os olhos e começa a prestar ainda mais atenção à história.
Naquele dia deixou-me quase inconsciente e foi embora, sem dizer uma palavra. Aquilo que ele fez deixou-me um pouco assustada na hora, mas depois senti-me estranhamente bem, mais presa a ele.
Nos dias seguintes fiquei um pouco abatida, talvez por querê-lo outra vez ao meu lado, talvez por ele ter levado um pouco de minha energia. Esforcei-me para evitar a visita de um médico, fingindo saúde e disfarçando as marcas do pescoço.
Depois de uma semana, quando já havia ardido em febre à sua espera, e sem poder contar a ninguém a minha história de amor louco, ele surgiu no meio da noite em minha janela, olhando-me fixamente através do vitral. Era muito sedutor, e não tive dúvida alguma: deixei que entrasse, e permiti que se saciasse mais uma vez.
Desta vez a dor foi menor, e pude aproveitar mais as sensações indescritíveis que me proporcionava. Enquanto ele tinha os dentes em mim era como se fôssemos um só, e era assim que eu queria estar: ligada a ele, para todo o sempre.
Depois disso, passei a deixar a janela aberta todas as noites. Ele vinha, envolvia-me e juntos deleitávamo-nos em meu quarto até muito tarde. Se meu pescoço doía, ele procurava outras partes do meu frágil corpo para saciar-se, e cada nova descoberta era um prazer imenso para ambos. Foram noites mágicas aquelas...
Durante os dias, eu já não tinha mais fome. E por passar as noites em claro, passei a dormir de dia. Na época meu pai viajava e não estava lá para notar minha palidez, minhas olheiras, minhas unhas roxas, minha fraqueza.
Porém, certa noite em que recebi o visitante e já não tomava os devidos cuidados para não ser flagrada, meu pai apareceu de surpresa no quarto. Já devia desconfiar de que algo ia errado com sua filha.
Pobrezinho...
Ficou totalmente perturbado ao ver-me, em sua própria casa, nos braços de um homem. Eu costumava ver sua bonequinha, e num piscar de olhos era uma corrompida. Furioso, passou a blasfemar e a me bater enquanto perguntava quem era o bastardo covarde que acabava de fugir pela janela. “Desgraçou-me a vida”, ele gritava, aos prantos, dizendo que me matava por isso.
Apesar de amar meu pai, não pude ouvir aquelas ofensas, e defendi com unhas e dentes o homem que tanto me encantava. Em minha ânsia adolescente, reneguei tudo o que eu recebera da minha família, inclusive meu nome, meu sangue.
Foi a noite em que deixei minha casa
Desamparada, sozinha pelas ruas, fui à procura daquele a quem eu havia entregue meu coração. Mas ele me decepcionou. Encontrei-o ao lado de outra e ainda assim fui até lá, humilhei-me, caí de joelhos, disse que tinha desistido da vida por ele...
Tudo em vão.
Fui deixada à própria sorte, abatida, fraca, sem a mesma beleza de antes, sem um lar onde viver. Bati de porta em porta, procurando uma casa para ficar, até ser acolhida pela gentil senhora dona desta casa de meninas. Senti um pouco de repulsa no início, mas já me acostumei aqui e com toda essa gente que vem atrás do pouco que resta da minha juventude e beleza.
O cliente continuou calado depois do final da história, pensando em tudo o que acabara de ouvir.
Agora diga-me, continuou a rapariga. O que devo pensar de um ser que faz isso com outra pessoa?Por que ele não me matou logo no começo? Aquele covarde...
Eu sei, uma grande tola é o que fui. Então que ao menos eu sirva de exemplo para outras meninas ingênuas que caem na conversa desse tipo de monstro...
O homem ao seu lado continuava pensativo.
—Olha, moça, você não deveria ficar contando essas coisas para qualquer estranho, sabia disso?
— Por que? Só não me atirei da ponte para não ir direto ao inferno, porque falta apenas isso para coroar minha desgraça. E você acha que realmente me preocupo por não acreditarem em mim? Por dizerem-me louca?
O homem a tomou em seus braços e sussurrou aos seus ouvidos. Isso não me importa, madame. Mas me preocupo com outra coisa...
Enquanto afagava os cabelos da dama, ele lambeu as pontas dos próprios caninos e chegou mais perto de seu pescoço.
...é com nossa reputação, minha cara.
Racha (L.F. Riesemberg)
Caíra a noite sobre a cidade.
O possante Maverick 1970 estava parado no posto de combustíveis, sob a pálida luz fluorescente de um holofote.
A lataria impecável era de um tom entre o vermelho e o laranja, com as famosas faixas negras no capô e nas laterais.
O tanque estava cheio de gasolina com aditivos.
Todo o seu anatômico corpo metálico acabara de ser muito bem lustrado e brilhava, fantasmagórico, como uma jóia na vitrine.
As rodas também reluziam, refletindo todas as luzes do ambiente nas calotas cromadas.
O carro era como uma rara peça em exposição, atraindo olhares admirados de quem quer que se aproximasse.
Através dos vidros era possível ver o conta-giros no painel e os sensuais assentos de couro.
A chave foi girada na ignição e o motor de oito cilindros começou a roncar. Ao mesmo tempo acenderam-se os redondos faróis da frente, como se a fera adormecida finalmente abrisse os olhos ao despertar de um sono profundo.
O rugido foi crescendo conforme o acelerador era suavemente pisado. Uma trepidação em toda a estrutura metálica dava a certeza de que a máquina estava definitivamente viva e furiosa, pronta para o ataque.
Quanto mais o motor V8 gritava, mais fumaça era cuspida pelo cano de escape duplo.
O Maverick permanecia estacionando, apenas preparando-se para dar o bote.
Acionado o braço da seta, o pisca esquerdo passou a funcionar, anunciando uma saída triunfal.
O volante girou. As rodas dianteiras o obedeceram e apontaram para a rua.
Os pneus deslizavam pelo chão úmido, colocando em movimento uma potência de quinhentos cavalos.
Imponente, o monstro de mil e trezentos quilos desfilou sobre as faixas amarelas da via, sentindo o vento gelado no para-brisa. .
Seguiu pela rua até atingir o círculo vermelho no semáforo.
Parado, esperando pelo sinal verde, surgiu em seu retrovisor uma figura estranha.
Um ponto prateado foi crescendo na imagem do espelho, até começar a adquirir forma.
Ouviu-se um diferente ronco de motor, e um segundo veículo estacionou sobre a faixa de pedestres, lado a lado com o Maverick.
Era um robusto Mustang branco, conversível, com a capota de vinil.
Chegou rouco, rosnando, impondo-se no território alheio.
Os dois veículos se olhavam e rugiam, enciumados com a presença do outro.
Cada um queria gritar mais alto, forçando o acelerador. Os escapes fumavam à toda, expelindo uma carga extra de gases tóxicos na atmosfera.
Os pneus traseiros do carro branco começaram a rodar sem que o veículo desse a largada. Giravam para cantar, e a fricção com o asfalto queimava borracha.
O carro vermelho passou a fazer o mesmo com suas rodas, e a rua transformou-se em uma sinfonia de ruídos industriais, como se várias serras elétricas estivessem trabalhando ao mesmo tempo.
Mais do que nunca, esperavam o sinal abrir, e então dariam uma lição ao concorrente.
Assemelhavam-se a dois cães de corrida aguardando a largada.
A pista era larga. Perfeita para manobras bruscas e perigosas.
Assim que acendeu o farol verde, os câmbios do Mustang e do Maverick engrenaram a primeira marcha e as máquinas partiram em um fôlego admirável pela via expressa.
Os aceleradores não foram mais poupados. Eram pisoteados com força até o fundo, sem perdão.
Em cinco segundos, os ponteiros dos velocímetros saíram do zero e apontaram para a marca dos cem quilômetros por hora.
Tinha início a caçada pelas ruas da cidade.
Os dois possantes cortavam a via de forma hostil, fazendo ultrapassagens repentinas e raspando nos veículos lentos.
Ouvia-se o som de buzinas e xingamentos de protesto quando eles passavam.
O Mustang tinha leve vantagem na corrida, mas o Maverick vinha vermelho de raiva logo atrás, cuspindo fogo pela traseira.
Os ponteiros já indicavam cento e cinquenta quilômetros por hora.
Surgiu outra lâmpada de semáforo acesa, amarela, um quarteirão à frente. Em dois segundos os carros percorreram os cem metros e passaram pelo cruzamento no momento em que a luz ficava vermelha.
A disputa pelo primeiro lugar continuava, e o trajeto levou os dois automóveis até a rodovia.
O radar da polícia rodoviária registrou a velocidade de 225 km/h quando os carros passaram.
Cortavam o ar como dois foguetes.
Os motores davam o máximo nas rampas e depois nas descidas, transformando a auto-estrada em uma montanha russa extrema.
Agora já era o Mustang branco na traseira do Maverick vermelho, como uma caçada de gato e rato.
As placas de trânsito chegavam a balançar com a passagem dos carros, um querendo ser mais forte que o outro.
Ambos queimavam muito combustível a cada manobra brusca, e derrapavam os pneus nas rachaduras da pista.
A dupla ultrapassou um caminhão, sem temer os perigos da curva logo adiante.
Os motores gritavam a mais de cem decibéis, e as máquinas corriam alucinadas.
Prosseguir naquela velocidade era como estar intoxicado, desligar-se do mundo sem perceber o que ocorria em volta.
Outro caminhão surgiu na direção contrária, antes que os carros terminassem uma ultrapassagem. Ao notar os faróis em sua frente, o máximo que conseguiu fazer foi tentar sair do caminho para evitar a colisão.
Caso o Maverick estivesse menos veloz, talvez tivesse tempo de desviar.
Seu capô vermelho chocou-se com a frente do enorme caminhão. No mesmo segundo os vidros do carro explodiram e a lataria foi rapidamente sendo prensada, comprimida, como uma lata de cerveja sendo amassada.
O motor do automóvel fundiu-se com o do caminhão, e peças eram arremessadas em várias direções. O ponteiro do painel travou com o choque, registrando o último abuso de velocidade.
O Mustang branco vinha logo atrás e até conseguiu frear, mas a velocidade era tão alta que o único efeito do breque foram trinta metros de marcas de pneus no asfalto. O carro arremessou-se direto contra a traseira do adversário, destruindo a própria cabine e transformando os restos do Maverick no recheio de um sanduíche de ferro.
Pouco depois do estrondo, ninguém entenderia o que significava aquela grande e confusa massa de metal retorcido, compacto, pingando óleo, numa mistura branca e vermelha — as mesmas cores da van que chegava minutos depois, inutilmente, com uma sirene estridente e uma luz sanguínea girando no teto.
O possante Maverick 1970 estava parado no posto de combustíveis, sob a pálida luz fluorescente de um holofote.
A lataria impecável era de um tom entre o vermelho e o laranja, com as famosas faixas negras no capô e nas laterais.
O tanque estava cheio de gasolina com aditivos.
Todo o seu anatômico corpo metálico acabara de ser muito bem lustrado e brilhava, fantasmagórico, como uma jóia na vitrine.
As rodas também reluziam, refletindo todas as luzes do ambiente nas calotas cromadas.
O carro era como uma rara peça em exposição, atraindo olhares admirados de quem quer que se aproximasse.
Através dos vidros era possível ver o conta-giros no painel e os sensuais assentos de couro.
A chave foi girada na ignição e o motor de oito cilindros começou a roncar. Ao mesmo tempo acenderam-se os redondos faróis da frente, como se a fera adormecida finalmente abrisse os olhos ao despertar de um sono profundo.
O rugido foi crescendo conforme o acelerador era suavemente pisado. Uma trepidação em toda a estrutura metálica dava a certeza de que a máquina estava definitivamente viva e furiosa, pronta para o ataque.
Quanto mais o motor V8 gritava, mais fumaça era cuspida pelo cano de escape duplo.
O Maverick permanecia estacionando, apenas preparando-se para dar o bote.
Acionado o braço da seta, o pisca esquerdo passou a funcionar, anunciando uma saída triunfal.
O volante girou. As rodas dianteiras o obedeceram e apontaram para a rua.
Os pneus deslizavam pelo chão úmido, colocando em movimento uma potência de quinhentos cavalos.
Imponente, o monstro de mil e trezentos quilos desfilou sobre as faixas amarelas da via, sentindo o vento gelado no para-brisa. .
Seguiu pela rua até atingir o círculo vermelho no semáforo.
Parado, esperando pelo sinal verde, surgiu em seu retrovisor uma figura estranha.
Um ponto prateado foi crescendo na imagem do espelho, até começar a adquirir forma.
Ouviu-se um diferente ronco de motor, e um segundo veículo estacionou sobre a faixa de pedestres, lado a lado com o Maverick.
Era um robusto Mustang branco, conversível, com a capota de vinil.
Chegou rouco, rosnando, impondo-se no território alheio.
Os dois veículos se olhavam e rugiam, enciumados com a presença do outro.
Cada um queria gritar mais alto, forçando o acelerador. Os escapes fumavam à toda, expelindo uma carga extra de gases tóxicos na atmosfera.
Os pneus traseiros do carro branco começaram a rodar sem que o veículo desse a largada. Giravam para cantar, e a fricção com o asfalto queimava borracha.
O carro vermelho passou a fazer o mesmo com suas rodas, e a rua transformou-se em uma sinfonia de ruídos industriais, como se várias serras elétricas estivessem trabalhando ao mesmo tempo.
Mais do que nunca, esperavam o sinal abrir, e então dariam uma lição ao concorrente.
Assemelhavam-se a dois cães de corrida aguardando a largada.
A pista era larga. Perfeita para manobras bruscas e perigosas.
Assim que acendeu o farol verde, os câmbios do Mustang e do Maverick engrenaram a primeira marcha e as máquinas partiram em um fôlego admirável pela via expressa.
Os aceleradores não foram mais poupados. Eram pisoteados com força até o fundo, sem perdão.
Em cinco segundos, os ponteiros dos velocímetros saíram do zero e apontaram para a marca dos cem quilômetros por hora.
Tinha início a caçada pelas ruas da cidade.
Os dois possantes cortavam a via de forma hostil, fazendo ultrapassagens repentinas e raspando nos veículos lentos.
Ouvia-se o som de buzinas e xingamentos de protesto quando eles passavam.
O Mustang tinha leve vantagem na corrida, mas o Maverick vinha vermelho de raiva logo atrás, cuspindo fogo pela traseira.
Os ponteiros já indicavam cento e cinquenta quilômetros por hora.
Surgiu outra lâmpada de semáforo acesa, amarela, um quarteirão à frente. Em dois segundos os carros percorreram os cem metros e passaram pelo cruzamento no momento em que a luz ficava vermelha.
A disputa pelo primeiro lugar continuava, e o trajeto levou os dois automóveis até a rodovia.
O radar da polícia rodoviária registrou a velocidade de 225 km/h quando os carros passaram.
Cortavam o ar como dois foguetes.
Os motores davam o máximo nas rampas e depois nas descidas, transformando a auto-estrada em uma montanha russa extrema.
Agora já era o Mustang branco na traseira do Maverick vermelho, como uma caçada de gato e rato.
As placas de trânsito chegavam a balançar com a passagem dos carros, um querendo ser mais forte que o outro.
Ambos queimavam muito combustível a cada manobra brusca, e derrapavam os pneus nas rachaduras da pista.
A dupla ultrapassou um caminhão, sem temer os perigos da curva logo adiante.
Os motores gritavam a mais de cem decibéis, e as máquinas corriam alucinadas.
Prosseguir naquela velocidade era como estar intoxicado, desligar-se do mundo sem perceber o que ocorria em volta.
Outro caminhão surgiu na direção contrária, antes que os carros terminassem uma ultrapassagem. Ao notar os faróis em sua frente, o máximo que conseguiu fazer foi tentar sair do caminho para evitar a colisão.
Caso o Maverick estivesse menos veloz, talvez tivesse tempo de desviar.
Seu capô vermelho chocou-se com a frente do enorme caminhão. No mesmo segundo os vidros do carro explodiram e a lataria foi rapidamente sendo prensada, comprimida, como uma lata de cerveja sendo amassada.
O motor do automóvel fundiu-se com o do caminhão, e peças eram arremessadas em várias direções. O ponteiro do painel travou com o choque, registrando o último abuso de velocidade.
O Mustang branco vinha logo atrás e até conseguiu frear, mas a velocidade era tão alta que o único efeito do breque foram trinta metros de marcas de pneus no asfalto. O carro arremessou-se direto contra a traseira do adversário, destruindo a própria cabine e transformando os restos do Maverick no recheio de um sanduíche de ferro.
Pouco depois do estrondo, ninguém entenderia o que significava aquela grande e confusa massa de metal retorcido, compacto, pingando óleo, numa mistura branca e vermelha — as mesmas cores da van que chegava minutos depois, inutilmente, com uma sirene estridente e uma luz sanguínea girando no teto.
A Lei de Lavoisier - aplicada à Arte (L.F. Riesemberg)
“Você vai me desculpar, mas não podemos aceitar seu conto. Achamos que ele ainda não está amadurecido o bastante”.
J.G. não suportava mais ouvir as desculpas dos editores das revistas nas quais tentava publicar.
“Mas não desista. Tenho certeza de que você vai criar uma ótima história se continuar tentando. Você não vai desistir de escrever, vai?”.
O escritor aspirante tinha dezenas de contos escritos e apenas em raros casos era recebido pessoalmente por um editor. Geralmente nem chegavam a lhe dar uma resposta sobre o que haviam achado do trabalho que enviara.
Em algumas poucas vezes chegava a receber um telefonema ou uma carta com um categórico “não”.
E esta sua entrevista com um dos homens grandes do setor editorial não havia sido muito feliz, para variar.
“Rapaz, a minha dica para você é que tente ser mais original. Procure colocar algo da sua própria vida no papel, e não só aquilo que lê em outros livros, saca?”.
O cretino queria parecer jovial com aquele “saca”.
“Obrigado, senhor. Vou procurar fazer isso nos próximos contos”.
Vou uma ova!, pensou, quando deixava o setor de publicações externas da grande revista literária, que todo mês aceitava um conto de escritores novatos.
Seria ótimo ter seu nome conhecido em nível nacional agora que estava prestes a terminar o primeiro romance. Mas, com a recusa da revista, teria que se virar sem qualquer publicidade.
“Talvez meu talento não seja para histórias curtas”, consolava-se. Mas o romance que estava escrevendo teria um estilo gótico que atrairia tanto fãs de histórias românticas como das de terror. Ou pelo menos é isso que poderia ser, se concluísse a obra.
Mais de trezentas páginas já estavam escritas, só que ainda faltava dar uma guinada na reta final. Há duas semanas tentava ter uma nova ideia para mais um capítulo, mas ela recusava a aparecer em sua cabeça. Nas últimas vezes em que sentou-se para escrever, o máximo que conseguiu foi colocar a ponta da caneta sobre o papel. A mão ficava parada sem escrever uma só frase completa, para sua decepção.
Permanecia assim, sem produtividade, por horas. Às vezes olhava para o céu, através da janela do apartamento, em busca de inspiração, mas isso acabava o distraindo e o distanciando ainda mais da história que queria criar.
Dizia que daria a alma para ter uma ideia mirabolante e original, que deixasse ele mesmo satisfeito e surpreendesse seus leitores — e editores.
Não que fossem ruins os textos que escrevia. Mas achava que eram por demais evidentes as influências de outros autores em sua obra. Como o velho da revista tinha percebido, ali em suas histórias constava muito do que já lera em tantos outros livros.
Este seu romance de estreia, por exemplo, estava ficando ótimo, segundo sua própria e exigente opinião. Mas era óbvio que, mais cedo ou mais tarde, os leitores notariam as fortes influências de O Retrato de Dorian Gray. Alguns críticos até o acusariam de plágio, e nunca dariam importância a um escritor que começa a carreira dessa péssima forma.
Mas não era plágio coisa nenhuma: tratava-se de uma mera coincidência. Quando o romance já estava quase pronto, depois de cuidadosamente planejado por meses, é que o autor foi perceber: inserira elementos que, muito claramente, remetiam ao clássico de Oscar Wilde.
Para certificar-se de que os outros realmente notariam esse deslize, mostrou os primeiros capítulos a um colega, conhecido pela absurda sinceridade. Dizem que entregar um trabalho seu a um crítico dá a mesma sensação de entregar seu bebê nas mãos de um canibal. E aquele canibal percebeu a falta de originalidade assim que bateu os olhos no texto: “Olha, está muito bem escrito, mas acho que você devia ser mais autêntico. Mais ousado. Quem é que vai querer uma cópia, podendo ler o original?”.
O escritor entendia a opinião do amigo e concordava, mas achava um desperdício jogar fora tanto tempo de trabalho duro em cima dos manuscritos. Seu livro não era uma apropriação indevida da criatividade alheia. Ele não era um ladrão ou um imitador: era um artista. Se eu escrevesse sobre vampiros seria acusado de copiar Drácula? É claro que não!, pensava. Segundo ele, todos deveriam aprender que a lei de Lavoisier também pode ser aplicada à Arte. Nada se cria. Nada se perde. Tudo se transforma.
E continuava ali, segurando a caneta, parado, pensando, ainda sem conseguir atrair a inspiração para algo realmente novo. As coisas só tendiam a piorar quando chegavam àquele ponto.
Na revista, o editor havia dito para colocar algo de sua própria vida nos textos. Mas colocar o que? Seu gênero não era realista: era fantástico. Como é que poderia acrescentar sua realidade a uma história que envolve fantasmas e monstros? Nunca havia visto um para descrevê-los, então era inevitável que o fizesse de uma forma semelhante à que outros escritores já tinham feito.
Naquela tarde, antes que ficasse deprimido pelo bloqueio mental por que passava, J.G. saiu e foi dar uma volta, ainda em busca da inspiração perdida. Seus passos o levaram pelas ruas até o grande e imponente prédio da Biblioteca.
E existe lugar melhor para se pensar?
A Biblioteca era um ambiente inspirador por dentro e por fora. Sua arquitetura gótica, cheia de gárgulas carrancudas protegendo a construção, e seu acervo com dezenas de milhares de livros - dos mais diversos gêneros - a tornavam um verdadeiro oceano vivo de imaginação.
Subiu muitos lances de escadas e percorreu, em silêncio, alguns corredores, até atingir o centro daquele seu velho conhecido depósito de obras maravilhosas: a seção de Literatura.
Nos fundos do salão ficava um grande arquivo de metal, que continha todas as fichas dos livros disponíveis, cadastrados por autor, em ordem alfabética. Com elas os usuários podiam consultar as obras do acervo, além de dados complementares dos livros, como o ano do lançamento, o tema e, às vezes, uma breve sinopse. O escritor foi até lá e passou os olhos pelas incontáveis gavetas cinzentas que preenchiam toda a parede, do chão ao teto. Abriu uma ao acaso e ficou lendo os nomes dos autores. A maioria deles estava morta, mas os livros que escreveram ainda estavam por aí, vivos, sendo lidos por muita gente.
Ficou boa parte da tarde ali, verificando as fichas, como se procurasse algo em especial. Em seu íntimo, estava remoendo o orgulho por ser considerado pouco criativo na elaboração de seus próprios trabalhos, enquanto os mortos levavam todos os louros.
Naquele momento não havia ninguém por perto na Biblioteca. Apenas poucos leitores silenciosos em uma mesa distante, e a bibliotecária que catalogava alguns volumes em sua mesa.
Ele abriu uma das gavetas e procurou até achar, entre centenas de outras, a ficha que queria. Era um papel retangular, meio amarelado, que trazia datilografado:
WILDE, Oscar. O Retrato de Dorian Gray.
Por que você tinha que existir? Você tolhe minha criatividade!
E rasgou o papel em muitos pedaços.
Na mesma hora teve um leve estremecimento, seguido de um arrepio pelo corpo. Olhou à volta para checar se alguém reparava nele, e teve uma sensação nova sobre o ambiente. Foi um lapso interessante da mente, no qual nunca havia sequer ouvido falar. Sem conhecer melhor definição para o que sentiu, diria que era um deja vu ao contrário: como se nunca tivesse estado antes naquele lugar, apesar de conhecê-lo muito bem.
Talvez fosse o sentimento de estar um pouco vingado após destruir o registro de Wilde, como se recuperasse parte do empenho que investira, durante toda sua vida, na criação literária. Sentia que naquela hora rasgara todos os exemplares, de todas as edições, em todas as traduções, daquela obra parecida demais com a sua.
Saiu de lá mais leve. Sem novas ideias para seu romance, mas mais leve.
Em casa, durante todo o resto daquele dia insosso, nem tentou acrescentar alguma coisa aos manuscritos. Começava até a cogitar o abandono daquele sonho, e desistir da carreira de autor para virar professor. Se tudo o que escrevia já tinha sido criado antes, isso só podia significar uma coisa: que todas as boas histórias já haviam sido contadas, e que se surgisse uma nova, ela seria somente a pálida versão de uma velha.
Largou os originais inacabados no chão da cozinha, ao lado do cesto de lixo, e foi dormir.
Na manhã seguinte, bem cedo, quando ainda estava deitado na cama, o telefone começa a tocar. Ele continua lá, sem se mover, e o telefone toca, toca, toca, até que a ligação cai na secretária eletrônica e uma mulher deixa o recado.
Alô? Não está em casa? Olha, não quero fazer pressão, nem nada, mas seria interessante que eu visse logo o último tratamento. Prometemos para junho, então é bom tomar cuidado com o prazo. Sabe como é a editora, não sabe?Beijinho da sua agente...
Ele levanta, com os cabelos desgrenhados, meio mau humorado, meio rindo, sem entender direito o divertido recado. Foi engano, é claro. Resolve botar a gravação para ouvir outra vez.
Alô? Não está em casa? Olha, não quero fazer pressão, nem nada, mas seria interessante que eu visse logo o último tratamento. Prometemos para junho, então é bom tomar cuidado com o prazo. Sabe como é a editora, não sabe?Beijinho da sua agente...
Desta vez ouviu cada palavra, e ficou perturbado com o que acontecera.
Anotou o número que aparecia no visor do identificador de chamadas e discou um por um.
A voz feminina atendeu.
—Alô?
—Alô. Aqui é o J.G e...
—Ah, que bom que você ligou, querido. Olha só, eu acabei de telefonar lá na editora e eles disseram que vão aumentar o prazo. Sabem que há outras interessadas no seu livro, então...
Fantasia ou realidade? Ele ouvia a mulher, que falava pelos cotovelos, acreditando estar em um sonho.
—Moça, isso é uma brincadeira?
Não acreditava que alguém pudesse realmente estar aguardando para publicar sua história, mas resolveu embarcar naquilo, e não perdeu a chance de perguntar:
—Só responda uma coisa: o que você está achando do meu romance?
—Hmmm... não quero encher sua bola, não, mas digamos que é promissor. Agora vai fazer seu trabalho que eu ainda tenho o meu para terminar aqui. Até breve.
Pasmo com o que acabara de vivenciar, ele foi até o chão da cozinha. Os manuscritos estavam lá, do mesmo jeito como estavam na noite anterior.
Foi até sua estante particular de livros. O Retrato de Dorian Gray não estava lá.
Vestiu-se apressado e correu até a biblioteca. Foi direto à seção planejada e não encontrou um único exemplar das obras de Oscar Wilde onde elas costumavam ficar, eternamente.
—Bibliotecária, por favor, como acho O Retrato de Dorian Gray?
— Como é, moço? Sabe o nome do autor?
Foram juntos até o conhecido arquivo, letra W, gaveta 26.
—Wilce, Wilcox, Wild, Wilder... Sinto muito, mas não há nenhum autor Wilde nos arquivos. Tem certeza que é assim que se escreve?
Ele correu até a maior livraria da cidade.
—Não, senhor — disse a atendente com um crachá escrito “Posso Ajudar?” — Não temos nenhuma obra com esse título no estoque, e pelo que estou checando aqui no sistema, também nunca constou em nossa rede.
Naquele dia ele voltou para casa e escreveu sem parar para nada, sem ao menos olhar pela janela, sem sequer lembrar-se do tempo. Não se preocupava mais em evitar a sombra do fantasma de Dorian Gray e gastou um calhamaço inteiro de papel anotando as ideias que lhe surgiam. Algumas eram copiadas, é verdade, mas não tinha a menor importância: se havia alguém interessado em ler (e em comprar), o negócio era fazer o que queriam e entregar logo.
Escreveu até fazer bolhas nos dedos, e só parou por pura exaustão, altas horas da madrugada.
Esse ritmo de produção continuou por mais de uma semana, durante dias e noites, até que finalmente colocou o ponto final do romance e pôs-se a contemplar, satisfeito, a versão final.
Lindo! Perfeito! Quero ver se alguém vai ter coragem de reclamar agora!
Não estava mal, de fato, descontando-se o fato de conter - na íntegra – longos trechos copiados de Dorian Gray.
Depois de entregue para a agente literária, ela telefonou chorando. Estava emocionada com o final, e já visualizava as críticas positivas.
Isso aqui vai receber prêmios! Você vai ficar famoso! E o melhor: vai vender muito!
Passaram-se alguns meses e as previsões da mulher estavam se concretizando. O escritor foi tido como a grande revelação do ano, e começava a ser citado em outros países. Já havia concedido entrevistas para duas grandes revistas — uma semanal de variedades e uma de Literatura — além de ter sido contatado por um produtor de cinema interessado em adaptar seu livro para as telas.
Sua vida dava um giro de trezentos e sessenta graus. Mudara-se para um apartamento maior e passara a conviver com um novo círculo social, sempre frequentando as festinhas dos intelectuais e de artistas que começavam, como ele, a ganhar notoriedade.
Agora sim, com um livro publicado, boas críticas e ótima vendagem, acreditava em seu potencial e considerava-se um autor de verdade.
Onde ia, não deixava de receber elogios rasgados, e autografava pelo menos três livros por dia.
Os leitores já começavam a perguntar sobre quando sairia e como seria seu próximo romance. Ele gostava apenas de anunciar, em tom de mistério:
Só posso dizer uma coisa: vocês vão se surpreender.
Ele próprio queria surpreender-se, já que não tinha a menor ideia de como seria seu novo trabalho. No momento queria apenas curtir toda aquela bajulação pelo livro que — agora sim — havia plagiado, roubado de uma mente alheia, mas que nunca iriam descobrir, porque tal mente parecia nunca ter existido na Terra desde que rasgara aquela ficha da biblioteca.
Às vezes sentia culpa. Nos sonhos, via-se como um assassino que assumia a identidade e os bens da vítima.
Mas a glória e a fama tratavam de fazer com que apenas raramente recordasse essa questão.
Numa bela manhã, sem ter marcado qualquer outro compromisso, tomou o rumo da Biblioteca. Lá dentro, folheou dezenas de livros, dos mais variados autores, tentando encontrar a obra que mais lhe chamasse a atenção para que pudesse tomá-la para si. Passeou por todos os corredores, até chegar à estante de livros de terror – uma de suas paixões.
Estava olhando os volumes, um a um, quando apareceu ao seu lado uma jovem colegial usando um uniforme azul marinho, com saias e meias na altura das canelas. Na hora ele pensou em Lolita. Mas a viu tirar da estante um livro grande e pesado, que os cantos dos olhos observaram o título em letras vermelhas: Drácula.
Além da cópia que a jovem retirou, sobraram ao menos outras cinco do mesmo livro. Ali também havia dezenas de outras opções entre histórias de vampiros, mas o mais antigo e interessante era mesmo aquele, publicado por Bram Stoker em 1897. A menina afastou-se e foi até uma das mesas do salão, onde permaneceu absorvida na leitura.
É este mesmo!
Foi até os arquivos no final da biblioteca, procurou pelas gavetas o cadastro da obra e achou com facilidade.
Antes de cometer o crime, olhou bem para o nome datilografado no papel. Adeus, meu camarada!
E rasgou a ficha.
Aquele sentimento de deja vu inverso aconteceu novamente, desorientando-o por um segundo. Parecia que coisas à sua volta haviam mudado de lugar.
Antes de sair, deu outra passada na seção de terror e conferiu, aliviado, que os exemplares de Drácula haviam evaporado da estante. Mas também constatou, um tanto surpreso, que não havia qualquer outro livro sobre vampiros na biblioteca, e os de terror haviam diminuído consideravelmente.
Foi indo embora e, antes de deixar aquele ambiente, deu uma olhada nas mesas.
A lolita também não estava mais lá.
Por um tempo, ficou tentando raciocinar sobre a possível reação em cadeia que o desaparecimento de alguns livros poderia causar. Estaria ele apagando apenas a obra, ou a existência do autor? Se assim fosse, isso também apagaria todos os descendentes deles. E aqueles livros que tivessem causado algum efeito na sociedade? Se eles não existissem, será que o mundo estaria muito diferente hoje?
Ele acreditava que não. Caso os livros não existissem para transformar as pessoas, um substituto teria feito o trabalho, e as coisas seriam do mesmo jeito. Afinal, livros eram apenas histórias. Não apagarei os trabalhos de Einstein, ou de outros cientistas. Isto sim seria uma tragédia.
A segunda publicação de J.G. causou alvoroço no meio literário. Em poucas semanas o seu novo romance vampiresco estava na lista dos best sellers, e dois grandes estúdios internacionais brigavam para comprar os direitos de adaptação para o cinema. Mais que isso, depois de algum tempo percebia-se que na sociedade nasciam nichos de pessoas obcecadas pelas figuras trágicas apresentadas ao mundo naquela obra.
Como o senhor teve a ideia de criar personagens imortais, que bebem sangue para viver e trazem problemas existenciais que fazem alusão ao homem moderno?
O escritor inventava as mais diversas respostas para os jornalistas. Estes, nunca se contentavam e queriam saber mais.
O gênero terror entra em um novo patamar com o lançamento do seu livro?
As perguntas lhe pareciam um tanto ingênuas.
O senhor acha que alguns crimes cometidos recentemente envolvendo assassinos que beberam o sangue da vítima podem ter sido influenciados pelas suas criaturas?
Para ele, algumas afirmações já começavam a virar piada.
Apesar das polêmicas, a editora adorava o lucro que a venda dos livros estava gerando. Traduções do texto para sete línguas já estavam sendo produzidas, e o autor viajaria para cada país onde ele fosse lançado.
Tudo o que os editores perguntavam, entre uma noite de autógrafos e outra, era: E aí? Para quando podemos esperar seu próximo trabalho?
Aliás, a mesma pergunta feita por centenas de fãs.
O contrato assinado com a editora previa o lançamento de mais três obras inéditas. Já incomodado com o assédio e a superexposição, pretendia entregá-las o mais rápido possível para, livre das obrigações, poder viajar como anônimo pelo mundo e isolar-se na costa do Pacífico.
Começava, portanto, a pensar em qual deveria ser seu novo romance – aquele que encerraria sua trilogia gótica.
Queria que soasse como Lolita. Mas depois de ter escrito duas histórias sombrias, teria que mesclar alguns elementos mais obscuros. Achava que talvez devesse fazer um cruzamento entre dois ou mais clássicos. Ninguém ficaria sabendo. Bastava ir até os arquivos, procurar as fichas e acabar com as provas da sua falta de originalidade.
Assim que livrou-se dos compromissos, voltou à Biblioteca.
Depois do sucesso, era cada vez mais desafiador ir a locais fechados sem ser reconhecido, e isso dificultava muito sua missão.
Também não poderia pedir a alguém que fosse até lá e rasgasse um documento público. Para que levantar suspeitas?
De volta ao local do crime, conseguiu chegar até o arquivo no amplo salão sem que o abordassem pelo caminho. Procurava a ficha de Nabokov.
Abriu a gaveta que trazia a letra N estampada abaixo do puxador, e quase deu um grito de susto.
Levou as mãos à boca, não acreditando no que via.
Dentro da gaveta, que deveria trazer os cadastros dos autores, só havia restos de pó em seu fundo. Abriu outras, e encontrou o mesmo vazio.
Correu desesperado de um canto dos arquivos a outro, olhando gaveta por gaveta, mas não havia nenhuma ficha lá. Encontrou apenas uma placa na parede: Agora nosso sistema passa a ser informatizado. Consulte um de nossos terminais eletrônicos no setor C deste andar.
Dirigiu-se até a bibliotecária, procurando disfarçar a ansiedade que se alastrava dentro de si.
“Moça, o que foi feito das fichas que costumavam ficar nos arquivos lá daquela parede?”.
“Levaram ontem para a reciclagem. Deu dois caminhões carregados com sacos de lixo cheios de papel.”
O escritor saiu voando para fora e, já de posse do endereço da empresa que procurava, dirigiu-se até os arredores da cidade.
Encontrou um galpão em um vasto campo de montes de lixo. A cada cinco minutos chegava um novo caminhão despejando mais papel e latas, que logo eram recolhidos em carrinhos de mão por catadores vestindo macacão e máscara no rosto. O cheiro do local era muito desagradável.
Foi caminhando entre pilhas de lixo prensado, procurando as fichas, até encontrar uma mulher que se disse a responsável pelo lugar.
“Ah, o carregamento que veio da biblioteca! Já foi todo reciclado e enviado para os clientes que compram nosso produto”, ela disse.
Amargurado, o escritor começava a dar adeus ao sonho de escrever outros livros geniais e autênticos.
“Mas junto com os caminhões vieram uns livros também. Sempre que encontramos livros nós os guardamos e doamos para as escolas”, disse a mulher.
Apesar do mal aspecto em que ela se apresentava, J.G. teve vontade de abraçá-la e beijá-la. Ainda havia uma chance.
“Moça, eu gostaria muito de dar uma olhada nesses livros”.
Os dois foram juntos até a salinha dela no interior do galpão, passando por diversas máquinas que trabalhavam sem parar, prensando o lixo.
“Estão nessas sacolas. Você pode ficar à vontade”.
Ele foi retirando os exemplares das sacolas, e vendo que a Biblioteca havia descartado algumas obras muito interessantes, apesar do estado lastimável das capas.
Porém, o que queria não eram os livros, mas a ficha de registro deles, que poderiam estar junto.
Foi abrindo e sacudindo um por um, torcendo para que caísse do meio de suas folhas um pedaço de papel com o nome e dados do autor, para que pudesse destruí-lo e reescrever o texto à sua maneira.
Revistou todos os livros. Depois olhou novamente. Olhou uma terceira vez.
Talvez fosse o destino estar ali, com aquela única ficha que restara, entre as milhares que existiam.
Só poderia ser o dono de mais aquela obra, que considerava cheia de erros.
Era uma obra grande, densa, polêmica.
Nunca havia pensado em criar algo daquela magnitude, mas não lhe restavam opções.
Tinha em seu poder o livro mais vendido de todos os tempos.
Se ele o reescrevesse, aí sim surpreenderia o mundo.
Agradeceu a mulher e foi caminhar entre labirintos de cubos de alumínio prensado.
Ao ar livre, debaixo do céu azul, sobe em um morro de lixo e grita:
“Bíblia Sagrada, quem vai ser seu autor, a partir de agora, sou EU!”.
E rasga a ficha, atirando os pedaços ao vento.
Esse mesmo vento começa repentinamente a uivar alto e a sacudir suas vestes, trazendo uma neblina densa e causando pequenos redemoinhos de papéis pelo ar. No mesmo momento o odor do ambiente fica mais repulsivo, e a temperatura se eleva a um nível preocupante. Os olhos do escritor começam a arder.
Ele olha à sua volta e não vê mais o galpão nem as máquinas de reciclagem.
Está sozinho no meio do lixo, debaixo de um céu preto que anuncia tempestade.
No horizonte, até onde sua vista alcança, alastrava-se um depósito de lixo sem fim. Uma chuva negra começa a cair, fétida, ácida, dolorida, como agulhas perfurando seu rosto.
J.G. não suportava mais ouvir as desculpas dos editores das revistas nas quais tentava publicar.
“Mas não desista. Tenho certeza de que você vai criar uma ótima história se continuar tentando. Você não vai desistir de escrever, vai?”.
O escritor aspirante tinha dezenas de contos escritos e apenas em raros casos era recebido pessoalmente por um editor. Geralmente nem chegavam a lhe dar uma resposta sobre o que haviam achado do trabalho que enviara.
Em algumas poucas vezes chegava a receber um telefonema ou uma carta com um categórico “não”.
E esta sua entrevista com um dos homens grandes do setor editorial não havia sido muito feliz, para variar.
“Rapaz, a minha dica para você é que tente ser mais original. Procure colocar algo da sua própria vida no papel, e não só aquilo que lê em outros livros, saca?”.
O cretino queria parecer jovial com aquele “saca”.
“Obrigado, senhor. Vou procurar fazer isso nos próximos contos”.
Vou uma ova!, pensou, quando deixava o setor de publicações externas da grande revista literária, que todo mês aceitava um conto de escritores novatos.
Seria ótimo ter seu nome conhecido em nível nacional agora que estava prestes a terminar o primeiro romance. Mas, com a recusa da revista, teria que se virar sem qualquer publicidade.
“Talvez meu talento não seja para histórias curtas”, consolava-se. Mas o romance que estava escrevendo teria um estilo gótico que atrairia tanto fãs de histórias românticas como das de terror. Ou pelo menos é isso que poderia ser, se concluísse a obra.
Mais de trezentas páginas já estavam escritas, só que ainda faltava dar uma guinada na reta final. Há duas semanas tentava ter uma nova ideia para mais um capítulo, mas ela recusava a aparecer em sua cabeça. Nas últimas vezes em que sentou-se para escrever, o máximo que conseguiu foi colocar a ponta da caneta sobre o papel. A mão ficava parada sem escrever uma só frase completa, para sua decepção.
Permanecia assim, sem produtividade, por horas. Às vezes olhava para o céu, através da janela do apartamento, em busca de inspiração, mas isso acabava o distraindo e o distanciando ainda mais da história que queria criar.
Dizia que daria a alma para ter uma ideia mirabolante e original, que deixasse ele mesmo satisfeito e surpreendesse seus leitores — e editores.
Não que fossem ruins os textos que escrevia. Mas achava que eram por demais evidentes as influências de outros autores em sua obra. Como o velho da revista tinha percebido, ali em suas histórias constava muito do que já lera em tantos outros livros.
Este seu romance de estreia, por exemplo, estava ficando ótimo, segundo sua própria e exigente opinião. Mas era óbvio que, mais cedo ou mais tarde, os leitores notariam as fortes influências de O Retrato de Dorian Gray. Alguns críticos até o acusariam de plágio, e nunca dariam importância a um escritor que começa a carreira dessa péssima forma.
Mas não era plágio coisa nenhuma: tratava-se de uma mera coincidência. Quando o romance já estava quase pronto, depois de cuidadosamente planejado por meses, é que o autor foi perceber: inserira elementos que, muito claramente, remetiam ao clássico de Oscar Wilde.
Para certificar-se de que os outros realmente notariam esse deslize, mostrou os primeiros capítulos a um colega, conhecido pela absurda sinceridade. Dizem que entregar um trabalho seu a um crítico dá a mesma sensação de entregar seu bebê nas mãos de um canibal. E aquele canibal percebeu a falta de originalidade assim que bateu os olhos no texto: “Olha, está muito bem escrito, mas acho que você devia ser mais autêntico. Mais ousado. Quem é que vai querer uma cópia, podendo ler o original?”.
O escritor entendia a opinião do amigo e concordava, mas achava um desperdício jogar fora tanto tempo de trabalho duro em cima dos manuscritos. Seu livro não era uma apropriação indevida da criatividade alheia. Ele não era um ladrão ou um imitador: era um artista. Se eu escrevesse sobre vampiros seria acusado de copiar Drácula? É claro que não!, pensava. Segundo ele, todos deveriam aprender que a lei de Lavoisier também pode ser aplicada à Arte. Nada se cria. Nada se perde. Tudo se transforma.
E continuava ali, segurando a caneta, parado, pensando, ainda sem conseguir atrair a inspiração para algo realmente novo. As coisas só tendiam a piorar quando chegavam àquele ponto.
Na revista, o editor havia dito para colocar algo de sua própria vida nos textos. Mas colocar o que? Seu gênero não era realista: era fantástico. Como é que poderia acrescentar sua realidade a uma história que envolve fantasmas e monstros? Nunca havia visto um para descrevê-los, então era inevitável que o fizesse de uma forma semelhante à que outros escritores já tinham feito.
Naquela tarde, antes que ficasse deprimido pelo bloqueio mental por que passava, J.G. saiu e foi dar uma volta, ainda em busca da inspiração perdida. Seus passos o levaram pelas ruas até o grande e imponente prédio da Biblioteca.
E existe lugar melhor para se pensar?
A Biblioteca era um ambiente inspirador por dentro e por fora. Sua arquitetura gótica, cheia de gárgulas carrancudas protegendo a construção, e seu acervo com dezenas de milhares de livros - dos mais diversos gêneros - a tornavam um verdadeiro oceano vivo de imaginação.
Subiu muitos lances de escadas e percorreu, em silêncio, alguns corredores, até atingir o centro daquele seu velho conhecido depósito de obras maravilhosas: a seção de Literatura.
Nos fundos do salão ficava um grande arquivo de metal, que continha todas as fichas dos livros disponíveis, cadastrados por autor, em ordem alfabética. Com elas os usuários podiam consultar as obras do acervo, além de dados complementares dos livros, como o ano do lançamento, o tema e, às vezes, uma breve sinopse. O escritor foi até lá e passou os olhos pelas incontáveis gavetas cinzentas que preenchiam toda a parede, do chão ao teto. Abriu uma ao acaso e ficou lendo os nomes dos autores. A maioria deles estava morta, mas os livros que escreveram ainda estavam por aí, vivos, sendo lidos por muita gente.
Ficou boa parte da tarde ali, verificando as fichas, como se procurasse algo em especial. Em seu íntimo, estava remoendo o orgulho por ser considerado pouco criativo na elaboração de seus próprios trabalhos, enquanto os mortos levavam todos os louros.
Naquele momento não havia ninguém por perto na Biblioteca. Apenas poucos leitores silenciosos em uma mesa distante, e a bibliotecária que catalogava alguns volumes em sua mesa.
Ele abriu uma das gavetas e procurou até achar, entre centenas de outras, a ficha que queria. Era um papel retangular, meio amarelado, que trazia datilografado:
WILDE, Oscar. O Retrato de Dorian Gray.
Por que você tinha que existir? Você tolhe minha criatividade!
E rasgou o papel em muitos pedaços.
Na mesma hora teve um leve estremecimento, seguido de um arrepio pelo corpo. Olhou à volta para checar se alguém reparava nele, e teve uma sensação nova sobre o ambiente. Foi um lapso interessante da mente, no qual nunca havia sequer ouvido falar. Sem conhecer melhor definição para o que sentiu, diria que era um deja vu ao contrário: como se nunca tivesse estado antes naquele lugar, apesar de conhecê-lo muito bem.
Talvez fosse o sentimento de estar um pouco vingado após destruir o registro de Wilde, como se recuperasse parte do empenho que investira, durante toda sua vida, na criação literária. Sentia que naquela hora rasgara todos os exemplares, de todas as edições, em todas as traduções, daquela obra parecida demais com a sua.
Saiu de lá mais leve. Sem novas ideias para seu romance, mas mais leve.
Em casa, durante todo o resto daquele dia insosso, nem tentou acrescentar alguma coisa aos manuscritos. Começava até a cogitar o abandono daquele sonho, e desistir da carreira de autor para virar professor. Se tudo o que escrevia já tinha sido criado antes, isso só podia significar uma coisa: que todas as boas histórias já haviam sido contadas, e que se surgisse uma nova, ela seria somente a pálida versão de uma velha.
Largou os originais inacabados no chão da cozinha, ao lado do cesto de lixo, e foi dormir.
Na manhã seguinte, bem cedo, quando ainda estava deitado na cama, o telefone começa a tocar. Ele continua lá, sem se mover, e o telefone toca, toca, toca, até que a ligação cai na secretária eletrônica e uma mulher deixa o recado.
Alô? Não está em casa? Olha, não quero fazer pressão, nem nada, mas seria interessante que eu visse logo o último tratamento. Prometemos para junho, então é bom tomar cuidado com o prazo. Sabe como é a editora, não sabe?Beijinho da sua agente...
Ele levanta, com os cabelos desgrenhados, meio mau humorado, meio rindo, sem entender direito o divertido recado. Foi engano, é claro. Resolve botar a gravação para ouvir outra vez.
Alô? Não está em casa? Olha, não quero fazer pressão, nem nada, mas seria interessante que eu visse logo o último tratamento. Prometemos para junho, então é bom tomar cuidado com o prazo. Sabe como é a editora, não sabe?Beijinho da sua agente...
Desta vez ouviu cada palavra, e ficou perturbado com o que acontecera.
Anotou o número que aparecia no visor do identificador de chamadas e discou um por um.
A voz feminina atendeu.
—Alô?
—Alô. Aqui é o J.G e...
—Ah, que bom que você ligou, querido. Olha só, eu acabei de telefonar lá na editora e eles disseram que vão aumentar o prazo. Sabem que há outras interessadas no seu livro, então...
Fantasia ou realidade? Ele ouvia a mulher, que falava pelos cotovelos, acreditando estar em um sonho.
—Moça, isso é uma brincadeira?
Não acreditava que alguém pudesse realmente estar aguardando para publicar sua história, mas resolveu embarcar naquilo, e não perdeu a chance de perguntar:
—Só responda uma coisa: o que você está achando do meu romance?
—Hmmm... não quero encher sua bola, não, mas digamos que é promissor. Agora vai fazer seu trabalho que eu ainda tenho o meu para terminar aqui. Até breve.
Pasmo com o que acabara de vivenciar, ele foi até o chão da cozinha. Os manuscritos estavam lá, do mesmo jeito como estavam na noite anterior.
Foi até sua estante particular de livros. O Retrato de Dorian Gray não estava lá.
Vestiu-se apressado e correu até a biblioteca. Foi direto à seção planejada e não encontrou um único exemplar das obras de Oscar Wilde onde elas costumavam ficar, eternamente.
—Bibliotecária, por favor, como acho O Retrato de Dorian Gray?
— Como é, moço? Sabe o nome do autor?
Foram juntos até o conhecido arquivo, letra W, gaveta 26.
—Wilce, Wilcox, Wild, Wilder... Sinto muito, mas não há nenhum autor Wilde nos arquivos. Tem certeza que é assim que se escreve?
Ele correu até a maior livraria da cidade.
—Não, senhor — disse a atendente com um crachá escrito “Posso Ajudar?” — Não temos nenhuma obra com esse título no estoque, e pelo que estou checando aqui no sistema, também nunca constou em nossa rede.
Naquele dia ele voltou para casa e escreveu sem parar para nada, sem ao menos olhar pela janela, sem sequer lembrar-se do tempo. Não se preocupava mais em evitar a sombra do fantasma de Dorian Gray e gastou um calhamaço inteiro de papel anotando as ideias que lhe surgiam. Algumas eram copiadas, é verdade, mas não tinha a menor importância: se havia alguém interessado em ler (e em comprar), o negócio era fazer o que queriam e entregar logo.
Escreveu até fazer bolhas nos dedos, e só parou por pura exaustão, altas horas da madrugada.
Esse ritmo de produção continuou por mais de uma semana, durante dias e noites, até que finalmente colocou o ponto final do romance e pôs-se a contemplar, satisfeito, a versão final.
Lindo! Perfeito! Quero ver se alguém vai ter coragem de reclamar agora!
Não estava mal, de fato, descontando-se o fato de conter - na íntegra – longos trechos copiados de Dorian Gray.
Depois de entregue para a agente literária, ela telefonou chorando. Estava emocionada com o final, e já visualizava as críticas positivas.
Isso aqui vai receber prêmios! Você vai ficar famoso! E o melhor: vai vender muito!
Passaram-se alguns meses e as previsões da mulher estavam se concretizando. O escritor foi tido como a grande revelação do ano, e começava a ser citado em outros países. Já havia concedido entrevistas para duas grandes revistas — uma semanal de variedades e uma de Literatura — além de ter sido contatado por um produtor de cinema interessado em adaptar seu livro para as telas.
Sua vida dava um giro de trezentos e sessenta graus. Mudara-se para um apartamento maior e passara a conviver com um novo círculo social, sempre frequentando as festinhas dos intelectuais e de artistas que começavam, como ele, a ganhar notoriedade.
Agora sim, com um livro publicado, boas críticas e ótima vendagem, acreditava em seu potencial e considerava-se um autor de verdade.
Onde ia, não deixava de receber elogios rasgados, e autografava pelo menos três livros por dia.
Os leitores já começavam a perguntar sobre quando sairia e como seria seu próximo romance. Ele gostava apenas de anunciar, em tom de mistério:
Só posso dizer uma coisa: vocês vão se surpreender.
Ele próprio queria surpreender-se, já que não tinha a menor ideia de como seria seu novo trabalho. No momento queria apenas curtir toda aquela bajulação pelo livro que — agora sim — havia plagiado, roubado de uma mente alheia, mas que nunca iriam descobrir, porque tal mente parecia nunca ter existido na Terra desde que rasgara aquela ficha da biblioteca.
Às vezes sentia culpa. Nos sonhos, via-se como um assassino que assumia a identidade e os bens da vítima.
Mas a glória e a fama tratavam de fazer com que apenas raramente recordasse essa questão.
Numa bela manhã, sem ter marcado qualquer outro compromisso, tomou o rumo da Biblioteca. Lá dentro, folheou dezenas de livros, dos mais variados autores, tentando encontrar a obra que mais lhe chamasse a atenção para que pudesse tomá-la para si. Passeou por todos os corredores, até chegar à estante de livros de terror – uma de suas paixões.
Estava olhando os volumes, um a um, quando apareceu ao seu lado uma jovem colegial usando um uniforme azul marinho, com saias e meias na altura das canelas. Na hora ele pensou em Lolita. Mas a viu tirar da estante um livro grande e pesado, que os cantos dos olhos observaram o título em letras vermelhas: Drácula.
Além da cópia que a jovem retirou, sobraram ao menos outras cinco do mesmo livro. Ali também havia dezenas de outras opções entre histórias de vampiros, mas o mais antigo e interessante era mesmo aquele, publicado por Bram Stoker em 1897. A menina afastou-se e foi até uma das mesas do salão, onde permaneceu absorvida na leitura.
É este mesmo!
Foi até os arquivos no final da biblioteca, procurou pelas gavetas o cadastro da obra e achou com facilidade.
Antes de cometer o crime, olhou bem para o nome datilografado no papel. Adeus, meu camarada!
E rasgou a ficha.
Aquele sentimento de deja vu inverso aconteceu novamente, desorientando-o por um segundo. Parecia que coisas à sua volta haviam mudado de lugar.
Antes de sair, deu outra passada na seção de terror e conferiu, aliviado, que os exemplares de Drácula haviam evaporado da estante. Mas também constatou, um tanto surpreso, que não havia qualquer outro livro sobre vampiros na biblioteca, e os de terror haviam diminuído consideravelmente.
Foi indo embora e, antes de deixar aquele ambiente, deu uma olhada nas mesas.
A lolita também não estava mais lá.
Por um tempo, ficou tentando raciocinar sobre a possível reação em cadeia que o desaparecimento de alguns livros poderia causar. Estaria ele apagando apenas a obra, ou a existência do autor? Se assim fosse, isso também apagaria todos os descendentes deles. E aqueles livros que tivessem causado algum efeito na sociedade? Se eles não existissem, será que o mundo estaria muito diferente hoje?
Ele acreditava que não. Caso os livros não existissem para transformar as pessoas, um substituto teria feito o trabalho, e as coisas seriam do mesmo jeito. Afinal, livros eram apenas histórias. Não apagarei os trabalhos de Einstein, ou de outros cientistas. Isto sim seria uma tragédia.
A segunda publicação de J.G. causou alvoroço no meio literário. Em poucas semanas o seu novo romance vampiresco estava na lista dos best sellers, e dois grandes estúdios internacionais brigavam para comprar os direitos de adaptação para o cinema. Mais que isso, depois de algum tempo percebia-se que na sociedade nasciam nichos de pessoas obcecadas pelas figuras trágicas apresentadas ao mundo naquela obra.
Como o senhor teve a ideia de criar personagens imortais, que bebem sangue para viver e trazem problemas existenciais que fazem alusão ao homem moderno?
O escritor inventava as mais diversas respostas para os jornalistas. Estes, nunca se contentavam e queriam saber mais.
O gênero terror entra em um novo patamar com o lançamento do seu livro?
As perguntas lhe pareciam um tanto ingênuas.
O senhor acha que alguns crimes cometidos recentemente envolvendo assassinos que beberam o sangue da vítima podem ter sido influenciados pelas suas criaturas?
Para ele, algumas afirmações já começavam a virar piada.
Apesar das polêmicas, a editora adorava o lucro que a venda dos livros estava gerando. Traduções do texto para sete línguas já estavam sendo produzidas, e o autor viajaria para cada país onde ele fosse lançado.
Tudo o que os editores perguntavam, entre uma noite de autógrafos e outra, era: E aí? Para quando podemos esperar seu próximo trabalho?
Aliás, a mesma pergunta feita por centenas de fãs.
O contrato assinado com a editora previa o lançamento de mais três obras inéditas. Já incomodado com o assédio e a superexposição, pretendia entregá-las o mais rápido possível para, livre das obrigações, poder viajar como anônimo pelo mundo e isolar-se na costa do Pacífico.
Começava, portanto, a pensar em qual deveria ser seu novo romance – aquele que encerraria sua trilogia gótica.
Queria que soasse como Lolita. Mas depois de ter escrito duas histórias sombrias, teria que mesclar alguns elementos mais obscuros. Achava que talvez devesse fazer um cruzamento entre dois ou mais clássicos. Ninguém ficaria sabendo. Bastava ir até os arquivos, procurar as fichas e acabar com as provas da sua falta de originalidade.
Assim que livrou-se dos compromissos, voltou à Biblioteca.
Depois do sucesso, era cada vez mais desafiador ir a locais fechados sem ser reconhecido, e isso dificultava muito sua missão.
Também não poderia pedir a alguém que fosse até lá e rasgasse um documento público. Para que levantar suspeitas?
De volta ao local do crime, conseguiu chegar até o arquivo no amplo salão sem que o abordassem pelo caminho. Procurava a ficha de Nabokov.
Abriu a gaveta que trazia a letra N estampada abaixo do puxador, e quase deu um grito de susto.
Levou as mãos à boca, não acreditando no que via.
Dentro da gaveta, que deveria trazer os cadastros dos autores, só havia restos de pó em seu fundo. Abriu outras, e encontrou o mesmo vazio.
Correu desesperado de um canto dos arquivos a outro, olhando gaveta por gaveta, mas não havia nenhuma ficha lá. Encontrou apenas uma placa na parede: Agora nosso sistema passa a ser informatizado. Consulte um de nossos terminais eletrônicos no setor C deste andar.
Dirigiu-se até a bibliotecária, procurando disfarçar a ansiedade que se alastrava dentro de si.
“Moça, o que foi feito das fichas que costumavam ficar nos arquivos lá daquela parede?”.
“Levaram ontem para a reciclagem. Deu dois caminhões carregados com sacos de lixo cheios de papel.”
O escritor saiu voando para fora e, já de posse do endereço da empresa que procurava, dirigiu-se até os arredores da cidade.
Encontrou um galpão em um vasto campo de montes de lixo. A cada cinco minutos chegava um novo caminhão despejando mais papel e latas, que logo eram recolhidos em carrinhos de mão por catadores vestindo macacão e máscara no rosto. O cheiro do local era muito desagradável.
Foi caminhando entre pilhas de lixo prensado, procurando as fichas, até encontrar uma mulher que se disse a responsável pelo lugar.
“Ah, o carregamento que veio da biblioteca! Já foi todo reciclado e enviado para os clientes que compram nosso produto”, ela disse.
Amargurado, o escritor começava a dar adeus ao sonho de escrever outros livros geniais e autênticos.
“Mas junto com os caminhões vieram uns livros também. Sempre que encontramos livros nós os guardamos e doamos para as escolas”, disse a mulher.
Apesar do mal aspecto em que ela se apresentava, J.G. teve vontade de abraçá-la e beijá-la. Ainda havia uma chance.
“Moça, eu gostaria muito de dar uma olhada nesses livros”.
Os dois foram juntos até a salinha dela no interior do galpão, passando por diversas máquinas que trabalhavam sem parar, prensando o lixo.
“Estão nessas sacolas. Você pode ficar à vontade”.
Ele foi retirando os exemplares das sacolas, e vendo que a Biblioteca havia descartado algumas obras muito interessantes, apesar do estado lastimável das capas.
Porém, o que queria não eram os livros, mas a ficha de registro deles, que poderiam estar junto.
Foi abrindo e sacudindo um por um, torcendo para que caísse do meio de suas folhas um pedaço de papel com o nome e dados do autor, para que pudesse destruí-lo e reescrever o texto à sua maneira.
Revistou todos os livros. Depois olhou novamente. Olhou uma terceira vez.
Talvez fosse o destino estar ali, com aquela única ficha que restara, entre as milhares que existiam.
Só poderia ser o dono de mais aquela obra, que considerava cheia de erros.
Era uma obra grande, densa, polêmica.
Nunca havia pensado em criar algo daquela magnitude, mas não lhe restavam opções.
Tinha em seu poder o livro mais vendido de todos os tempos.
Se ele o reescrevesse, aí sim surpreenderia o mundo.
Agradeceu a mulher e foi caminhar entre labirintos de cubos de alumínio prensado.
Ao ar livre, debaixo do céu azul, sobe em um morro de lixo e grita:
“Bíblia Sagrada, quem vai ser seu autor, a partir de agora, sou EU!”.
E rasga a ficha, atirando os pedaços ao vento.
Esse mesmo vento começa repentinamente a uivar alto e a sacudir suas vestes, trazendo uma neblina densa e causando pequenos redemoinhos de papéis pelo ar. No mesmo momento o odor do ambiente fica mais repulsivo, e a temperatura se eleva a um nível preocupante. Os olhos do escritor começam a arder.
Ele olha à sua volta e não vê mais o galpão nem as máquinas de reciclagem.
Está sozinho no meio do lixo, debaixo de um céu preto que anuncia tempestade.
No horizonte, até onde sua vista alcança, alastrava-se um depósito de lixo sem fim. Uma chuva negra começa a cair, fétida, ácida, dolorida, como agulhas perfurando seu rosto.
Meu Herói (L.F. Riesemberg)
Uns dez anos depois de eu ter nascido, passei por esta fase de adorar ir às matinês assistir velhos filmes de bang-bang e sair por aí com meus amigos, dando tiros com um revólver imaginário. Nas tardes de sábado, depois do cinema, aproveitávamos para reunir a turma da escola e discutir sobre as coisas importantes da vida.
Em certo verão a moda foi tentar completar um álbum de figurinhas de super-heróis, e aproveitávamos esses encontros para tentar trocar as gravuras repetidas ou ganhar algumas novas no jogo de bafo.
Lembro que, em certo dia, estávamos em uma praça, cada um com seu álbum debaixo do braço e um maço de homenzinhos fantasiados, repetidos, guardados no bolso. Foi quando um dos companheiros da roda começou a conversa:
—Quem vocês acham que é o melhor herói do mundo?
Essas preocupações eram comuns para garotos da nossa idade. Não havia nenhum de nós que nunca tivesse usado horas de imaginação pensando em assuntos como aquele, e todos tínhamos a resposta na ponta da língua.
—O Super-Homem, claro! — disse um deles. — Ele é o mais forte de todos, e pode voar! Nunca ninguém o venceu.
Não demorava muito para estar estabelecido um debate mirim sobre o tema, com alguns criticando severamente a opinião alheia e apresentando o seu forte ponto de vista.
—O Super-Homem é muito trouxa. Bom mesmo é o Batman: ele só sai de noite, todo medonho, vestido de preto. E ele é um homem de verdade, sendo que todo mundo sabe que o Super-Homem nem existe. Já viu alguém voar? Já viu alguém ter lasers que saem dos olhos?
—É porque ele é um alienígena, seu burro! Esqueceu que veio do planeta Krypton?
E assim seguíamos, cada um achando-se o dono da verdade. Verdade esta que muitas vezes era destruída em apenas um segundo, por uma frase alheia.
Naquela hora eu fiquei à parte da conversa. Sabia que meu herói preferido seria zombado de alguma forma, já que se tratava do loiro Aquaman. Não sei por qual motivo ele me atraía, já que nem tinha grandes poderes, e era tratado como um coadjuvante de outros personagens mais famosos. Mas algo nele me chamava a atenção, e eu sempre buscava as revistas que tinham sua participação, por mais curta que fosse. Adorava aquela combinação das cores laranja e verde com as quais era sempre pintado, e seus poderes não eram nada ruins: possuía força superior, podia viver debaixo d’água e ainda se comunicava com os animais marinhos.
Não palpitei, fiquei apenas ouvindo o que os outros falavam, até que um dos meninos do grupo, que havia sido coroinha na igreja e era nosso amigo há pouco tempo — e que normalmente não falava muitas coisas interessantes — surgiu com aquele assunto estranho. A mim pareceu uma piada e, assim que ele falou, todos riram ou ao menos prepararam-se para rir.
O que ele disse foi:
— O maior super-herói de todos é Jesus!
Ninguém quis levar o garoto a sério. A palavra os fazia pensar na chata obrigação de ir à missa com os pais, todo domingo de manhã. Também os fazia lembrar todos os castigos que já haviam recebido por terem falado algum palavrão, ou por não emprestarem seus brinquedos ao irmão caçula. Os pais sempre vinham com esses assuntos de religião quando queriam humilhar os filhos depois que eles faziam algo errado. E nenhum de nós nunca havia falado positivamente sobre aquilo quando estávamos sozinhos, sem a presença de um adulto.
—É verdade! Já pararam para pensar? — interrogou o menino.
Eu até tentei, mas a imagem de Jesus estava atrelada ao ambiente rígido e chato da igreja. Não tinha relação alguma com as movimentadas aventuras que eu lia nas histórias em quadrinhos, cheias de bandidos, tiroteios, socos e enrascadas. E parecia-me idiota a figura de um Jesus barbudo usando uma capa nas costas e voando pelo céu.
Não demorou nada para alguém expressar a mesma opinião que eu tinha.
— Você está louco? Jesus não é um herói.
— É sim! — insistia aquele garoto. — Ele tem super-poderes!
Até então eu achava que ele estava de zombaria, mas quis saber do que estava falando.
—Ele cura as doenças mais graves. E até ressuscita os mortos! Lembram daquela vez com Lázaro no sepulcro? Foi assustador. Ele disse “Levanta!”, e o morto acordou e saiu da caverna!
Eu nunca havia pensado daquela maneira. Super-poderes, para mim, eram uma força maior que o normal, ou a capacidade de se transformar em outras coisas, como aquele casal de gêmeos fazia. Podia ser também visão de raio-x, invisibilidade, elasticidade, uma porção de coisas, mas nada daquilo que aprendíamos nas chatíssimas aulas da catequese. Ao que o menino rebatia:
—Jesus tem também o poder de transformar uma coisa em outra. Lembram de como fez a água virar vinho? Com certeza pode fazer isso com outras coisas também. Por exemplo, Ele poderia transformar a arma na mão do inimigo em uma cobra. Ah, e também consegue multiplicar as coisas, como fez no milagre dos pães. Imagine tudo o que ele poderia fazer apenas com esse poder!
Eu mesmo aleguei que Jesus só tinha feito aquilo uma única vez, e ainda por cima com pães! Eu duvidava muito que se pudesse fazer o mesmo com armas, ou montanhas, ou elefantes, ou com qualquer outra coisa grande.
—Digamos que Jesus só consiga multiplicar essas coisinhas pequenas e leves. Que utilidade isso teria? — interroguei.
O garoto olhou ao redor e pegou uma borboleta que havia pousado no banco da praça onde estava sentado, e continuou:
—Se Ele fizesse essa borboleta se multiplicar por mil, ou dez mil, até cem mil, sei lá, e fizesse com que elas rodeassem o vilão, derrubando aquele pó das asas nos olhos dele, e começassem a entrar pelo nariz e pela boca do sujeito, logo ele não conseguiria respirar, e nem enxergaria nada, então seria fácil agarrá-lo.
Assim como os outros, eu ri naquela hora, porque a ideia pareceu tola demais. Mas não deixava de fazer sentido: se Jesus multiplicava pães, poderia fazer aquilo com outros objetos, ao menos os pequenos, e é claro que isso teria alguma função para se combater o Mal.
Porém, logo outro colega já estava propondo uma nova visão:
— Então! Você falou em milagres. É isso aí: Jesus não é um herói. Ele é um santo! É por isso que consegue fazer essas coisas. Agora você acha que todos os santos podem virar super-heróis? Será que a gente ia ver uma história de Santo Antônio versus O Duende Macabro, ou uma Liga de Heróis formada pelos apóstolos?
Mais risos da turma.
O garoto defensor do Cristo-herói ficou pensando por um momento. Talvez não tivesse tido aquela ideia ainda, mas logo após refletir um pouco, disse:
—É, pode até ser. Nem todos os santos têm poderes. Só alguns. Mas de qualquer forma, Jesus ainda seria o líder de todos, porque é o mais forte, o mais bondoso, o mais poderoso...
— E a identidade secreta? Todos os heróis têm! — aleguei.
— Eles usam um nome falso por proteção. Seria perigoso se todos os bandidos e vilões soubessem onde eles moram, onde trabalham e quem é a família deles. Mas Jesus é o mais corajoso. Ele não tem medo de nada, nem de ninguém.
Cada um de nós tinha um argumento para convencer o garoto de que ele estava errado, e que não deveria misturar as coisas. Igreja e aventuras não combinavam.
Outro menino quis saber:
— E o uniforme? Que graça tem um super-herói que só usa aqueles panos para se cobrir?
Mas aquele garoto parecia ter uma resposta para tudo:
— Aqueles panos se chamam túnica, e era a roupa que se usava no tempo em que Jesus viveu. Se Ele existisse nos dias de hoje, acho que vestiria aquilo que todo mundo usa. Como eu disse, ele não ia precisar ficar escondendo o rosto, nem nada.
Fiquei olhando o garoto rebatendo todas aquelas dúvidas, e algo nele me fazia pensar diferente. Apesar de haver essa negação por parte de quase todos em se aceitar Jesus como um herói, as histórias do Evangelho ficavam muito mais interessantes depois que eu o imaginei como uma coletânea de histórias de heróis. Era bem possível que Jesus tenha sido uma espécie de super-homem, que combateu o mal e protegeu os fracos e oprimidos. E pensando bem, Jesus existiu mesmo. Não era ficção.
Havia tantas coisas fora do comum na vida de Cristo, e eu nunca tinha me interessado tanto por Ele. Mas naquela hora parece que deu um click em minha cabeça, e comecei a pensar melhor nas pessoas que se curaram só de tocá-Lo, e na vez em que foi visto caminhando sobre as águas, e ainda nas ocasiões em que previu o futuro — como na hora do beijo de Judas.
Sim, aquele menino parecia estar com certa razão, e deveria ser ouvido. Jesus seria um super-herói bem interessante. Nós é que ainda não tínhamos reparado.
Eu estava quase convencido, quando um outro garoto da nossa turma veio com a seguinte pergunta:
— Se Ele é um super-herói, cadê Ele?
Na mesma hora lembrei de Jesus na cruz, ensanguentado e humilhado.
O coroinha já estava se preparando para responder, mas o outro continuou:
— Que herói é esse, que apanha, é torturado e morto, e não faz nada?
Todos começamos a pensar naquilo. Super-heróis tinham obrigação de vencer, senão não seriam super-heróis.
— Jesus morreu! Mataram Ele! E nem teve dignidade de se defender! Se tinha realmente poderes, por que não usou quando mais precisou? Para mim, todas essas histórias são mentira. O professor falou lá na escola, uma vez que escutei atrás da porta, que isso tudo foi inventado pelos padres. Jesus era só um homem bom, que falava coisas bonitas, mas nunca curou ninguém, nem andou na água, nem nada...
O menino atirou aquelas frases como um jato de água gelada na minha recém inaugurada nova verdade. Eu já tinha mesmo ouvido essas histórias, de que não há provas sobre Jesus não ter passado de apenas um homem comum, sem nada de extraordinário.
Já estava começando a gostar de encará-lo como um herói, um protetor do Planeta, mas a afirmação daquele garoto fazia sentido: por que é que alguém se deixaria apanhar e morrer injustamente se tivesse como escapar? Por que Jesus não fez uma mágica e não derrotou todos aqueles que o maltrataram? Por que não fez as grades desaparecerem e não fugiu da prisão enquanto podia?
— Como é que você vai ser protegido por um herói que não consegue salvar nem a si mesmo? — disse, talvez não exatamente com essas palavras, o garoto revoltado.
O outro, que defendia o Cristo, estava ruminando as informações, e teve que levantar a voz para ser ouvido pela turma, que já começava a discutir.
— Mas Ele não morreu de verdade! Ele foi visto por várias pessoas depois da crucificação!
Foi aí que um novo menino, que também não devia ter gostado da imagem do Super Jesus, injetou um pouco mais de veneno na discussão:
— Então Ele não é um herói mesmo: é um fantasma! Ou pior: é um morto-vivo, um zumbi!
Aquilo bastou para que todos explodissem em gargalhadas. Nunca alguém havia falado algo daquele tipo, e se fôssemos pensar em todas as possibilidades para o que realmente era Jesus, passaríamos a tarde toda discutindo.
O garoto que começou a falar de Cristo sentiu-se exausto de tanto tentar convencer os amigos, e deu um longo suspiro, decepcionado com aquelas palavras tão amargas a respeito do seu ídolo. Naquele dia passamos a vê-lo como um católico chato e defensor da igreja, que não entendia nada sobre histórias em quadrinhos, nem sobre heróis, nem sobre aventuras legais, nem sobre nada. Não demorou muito para que parasse de sair conosco, e se tornasse apenas mais um rosto conhecido.
Passaram-se os meses, e continuamos a levar nossa vida de sempre. Toda a vez que eu tinha que ir à missa e via as figuras de Cristo crucificado estampadas pelas paredes, recordava de como quase acreditei que Ele tinha sido um super-herói. Não que Ele não tivesse sido um cara legal, mas também era exagero compará-Lo ao Aquaman, ou ao Super-Homem. Estes sim, não se deixariam ser presos, nem humilhados, abandonando aqueles que os seguem. Talvez tenha sido a maior decepção da minha vida até então, saber que alguém tão adorado no mundo inteiro não teve capacidade de se libertar de uma cilada, nem de se vingar exemplarmente de quem o traiu. As pessoas esperavam algo de Jesus, e Ele as decepcionou. Como eu poderia crer em um herói desses?
Tempos depois, não quis mais ir à igreja, preferindo ficar com meus gibis e álbuns de figurinhas. Eu já começava a formar minha própria personalidade, deixando de lado tudo que haviam me feito acreditar naqueles primeiros anos da minha vida. Meus pais ficaram tristes naquela época, mas sempre foram muito compreensivos e não me obrigaram a seguir a crença deles.
— O importante é crer em Deus — dizia meu pai, lembrando que todas as religiões adoravam o mesmo Pai, e que eu poderia seguir aquela que mais me agradasse.
Porém, naqueles anos em que começa a adolescência, não tive interesse em procurar religião alguma. Havia muitos outros assuntos interessantes a se aprender, e todos os amigos da turma concordavam com isso. Passamos a voltar para casa à noite, a fumar e a beber escondidos, e a nos envolver com garotas. Era isso o que faltava para eu deixar todos meus heróis de lado e a não querer mais ir, definitivamente, à igreja ou a qualquer outro templo.
Contávamos com quatorze anos. Numa dessas noites de loucura, em que conseguimos uma garrafa de vodka e vagávamos pela cidade em um velho Opala que algum rapaz pegou da garagem do pai, aconteceu algo que, mais uma vez, modificou minha visão.
O nosso motorista quis demonstrar sua habilidade ao volante, e passou a fazer manobras perigosas, em alta velocidade. Não contentes com as acrobacias nas ruas da cidade, rumamos para a rodovia, onde o automóvel poderia atingir seus limites.
Havia eu e mais três no interior do carro. Devíamos todos estar alucinados, gritando e rindo como doidos, achando que aquilo era aproveitar a vida.
No auge da agitação, como poderia se esperar, o veículo derrapou e saiu da pista, vindo a colidir com a grade de proteção de uma ponte de madeira, e caiu em um rio com pelo menos dez metros de profundidade.
Era noite, eu estava bêbado e preso ao assento do Opala, sem conseguir me mover, sentindo a fria água entrar pela janela.
Fiquei paralisado, sem entender o que estava acontecendo, com os olhos ardendo.
Um raro lampejo de razão que me veio à mente naquela hora,como um dedo me acusando: “Você não sabe nadar”.
Por mais que me esforçasse, sentia que não conseguiria sair do interior do veículo. E mesmo que conseguisse, morreria afogado. Já totalmente submerso, mas ainda descendo cada vez mais para o fundo das águas, percebi que já estava sozinho. Os outros deviam ter conseguido se soltar, e sabiam nadar.
Estava imerso no silêncio do rio, esperando o oxigênio e o meu suplício acabarem.
Na hora fatal, lembrei de muitas coisas que haviam se passado na minha vida. Pensei nos meus pais, nos meus amigos, nas minhas brincadeiras, na escola. Pensei nas garotas que eu gostava, nas revistas em quadrinhos que eu lia, nas sessões de cinema de sábado à tarde, e na igreja que eu havia abandonado. Apesar de minha desistência, deveriam fazer uma missa pelo meu passamento. Um padre diria coisas bonitas a meu respeito, e meus tristes pais depositariam flores em meu túmulo e manteriam meu quarto do jeito como estava, para que eu não me apagasse da memória deles. A escola não abriria no dia seguinte, e a professora faria uma oração com os alunos assim que as aulas retornassem ao normal.
Foi já com os olhos fechados, pensando no meu fim, que senti um puxão nas minhas vestes. Uma mão me agarrava e, com muita força, me atraía para fora do carro. Fui como que pescado, e levado para o alto das águas, até atingir a superfície. A primeira golfada de ar que inundou meus pulmões me deu a sensação de estar nascendo naquele momento. Ninguém à volta saberia que eu chorava, porque as lágrimas se confundiam com a água que cobria meu rosto.
Deitado no chão, vi a alguns metros de distância os olhares assustados e culpados dos meus três companheiros, e logo em seguida notei outro rosto perto do meu. Era de um homem loiro que eu nunca havia visto, apesar de parecer estranhamente familiar, e cujos olhos expressavam um grande assombro.
— Está vivo! Graças a Deus! — dizia ele.
Depois enfiou a mão pela gola da sua camisa laranja encharcada, e de lá tirou uma corrente com uma cruz de prata, e levou-a aos lábios para dar um carinhoso beijo.
— Foi Jesus Cristo quem me fez estar passando aqui. Foi Ele quem me deu coragem para me atirar na água e te salvar. Rapaz: é Ele o teu herói.
Em certo verão a moda foi tentar completar um álbum de figurinhas de super-heróis, e aproveitávamos esses encontros para tentar trocar as gravuras repetidas ou ganhar algumas novas no jogo de bafo.
Lembro que, em certo dia, estávamos em uma praça, cada um com seu álbum debaixo do braço e um maço de homenzinhos fantasiados, repetidos, guardados no bolso. Foi quando um dos companheiros da roda começou a conversa:
—Quem vocês acham que é o melhor herói do mundo?
Essas preocupações eram comuns para garotos da nossa idade. Não havia nenhum de nós que nunca tivesse usado horas de imaginação pensando em assuntos como aquele, e todos tínhamos a resposta na ponta da língua.
—O Super-Homem, claro! — disse um deles. — Ele é o mais forte de todos, e pode voar! Nunca ninguém o venceu.
Não demorava muito para estar estabelecido um debate mirim sobre o tema, com alguns criticando severamente a opinião alheia e apresentando o seu forte ponto de vista.
—O Super-Homem é muito trouxa. Bom mesmo é o Batman: ele só sai de noite, todo medonho, vestido de preto. E ele é um homem de verdade, sendo que todo mundo sabe que o Super-Homem nem existe. Já viu alguém voar? Já viu alguém ter lasers que saem dos olhos?
—É porque ele é um alienígena, seu burro! Esqueceu que veio do planeta Krypton?
E assim seguíamos, cada um achando-se o dono da verdade. Verdade esta que muitas vezes era destruída em apenas um segundo, por uma frase alheia.
Naquela hora eu fiquei à parte da conversa. Sabia que meu herói preferido seria zombado de alguma forma, já que se tratava do loiro Aquaman. Não sei por qual motivo ele me atraía, já que nem tinha grandes poderes, e era tratado como um coadjuvante de outros personagens mais famosos. Mas algo nele me chamava a atenção, e eu sempre buscava as revistas que tinham sua participação, por mais curta que fosse. Adorava aquela combinação das cores laranja e verde com as quais era sempre pintado, e seus poderes não eram nada ruins: possuía força superior, podia viver debaixo d’água e ainda se comunicava com os animais marinhos.
Não palpitei, fiquei apenas ouvindo o que os outros falavam, até que um dos meninos do grupo, que havia sido coroinha na igreja e era nosso amigo há pouco tempo — e que normalmente não falava muitas coisas interessantes — surgiu com aquele assunto estranho. A mim pareceu uma piada e, assim que ele falou, todos riram ou ao menos prepararam-se para rir.
O que ele disse foi:
— O maior super-herói de todos é Jesus!
Ninguém quis levar o garoto a sério. A palavra os fazia pensar na chata obrigação de ir à missa com os pais, todo domingo de manhã. Também os fazia lembrar todos os castigos que já haviam recebido por terem falado algum palavrão, ou por não emprestarem seus brinquedos ao irmão caçula. Os pais sempre vinham com esses assuntos de religião quando queriam humilhar os filhos depois que eles faziam algo errado. E nenhum de nós nunca havia falado positivamente sobre aquilo quando estávamos sozinhos, sem a presença de um adulto.
—É verdade! Já pararam para pensar? — interrogou o menino.
Eu até tentei, mas a imagem de Jesus estava atrelada ao ambiente rígido e chato da igreja. Não tinha relação alguma com as movimentadas aventuras que eu lia nas histórias em quadrinhos, cheias de bandidos, tiroteios, socos e enrascadas. E parecia-me idiota a figura de um Jesus barbudo usando uma capa nas costas e voando pelo céu.
Não demorou nada para alguém expressar a mesma opinião que eu tinha.
— Você está louco? Jesus não é um herói.
— É sim! — insistia aquele garoto. — Ele tem super-poderes!
Até então eu achava que ele estava de zombaria, mas quis saber do que estava falando.
—Ele cura as doenças mais graves. E até ressuscita os mortos! Lembram daquela vez com Lázaro no sepulcro? Foi assustador. Ele disse “Levanta!”, e o morto acordou e saiu da caverna!
Eu nunca havia pensado daquela maneira. Super-poderes, para mim, eram uma força maior que o normal, ou a capacidade de se transformar em outras coisas, como aquele casal de gêmeos fazia. Podia ser também visão de raio-x, invisibilidade, elasticidade, uma porção de coisas, mas nada daquilo que aprendíamos nas chatíssimas aulas da catequese. Ao que o menino rebatia:
—Jesus tem também o poder de transformar uma coisa em outra. Lembram de como fez a água virar vinho? Com certeza pode fazer isso com outras coisas também. Por exemplo, Ele poderia transformar a arma na mão do inimigo em uma cobra. Ah, e também consegue multiplicar as coisas, como fez no milagre dos pães. Imagine tudo o que ele poderia fazer apenas com esse poder!
Eu mesmo aleguei que Jesus só tinha feito aquilo uma única vez, e ainda por cima com pães! Eu duvidava muito que se pudesse fazer o mesmo com armas, ou montanhas, ou elefantes, ou com qualquer outra coisa grande.
—Digamos que Jesus só consiga multiplicar essas coisinhas pequenas e leves. Que utilidade isso teria? — interroguei.
O garoto olhou ao redor e pegou uma borboleta que havia pousado no banco da praça onde estava sentado, e continuou:
—Se Ele fizesse essa borboleta se multiplicar por mil, ou dez mil, até cem mil, sei lá, e fizesse com que elas rodeassem o vilão, derrubando aquele pó das asas nos olhos dele, e começassem a entrar pelo nariz e pela boca do sujeito, logo ele não conseguiria respirar, e nem enxergaria nada, então seria fácil agarrá-lo.
Assim como os outros, eu ri naquela hora, porque a ideia pareceu tola demais. Mas não deixava de fazer sentido: se Jesus multiplicava pães, poderia fazer aquilo com outros objetos, ao menos os pequenos, e é claro que isso teria alguma função para se combater o Mal.
Porém, logo outro colega já estava propondo uma nova visão:
— Então! Você falou em milagres. É isso aí: Jesus não é um herói. Ele é um santo! É por isso que consegue fazer essas coisas. Agora você acha que todos os santos podem virar super-heróis? Será que a gente ia ver uma história de Santo Antônio versus O Duende Macabro, ou uma Liga de Heróis formada pelos apóstolos?
Mais risos da turma.
O garoto defensor do Cristo-herói ficou pensando por um momento. Talvez não tivesse tido aquela ideia ainda, mas logo após refletir um pouco, disse:
—É, pode até ser. Nem todos os santos têm poderes. Só alguns. Mas de qualquer forma, Jesus ainda seria o líder de todos, porque é o mais forte, o mais bondoso, o mais poderoso...
— E a identidade secreta? Todos os heróis têm! — aleguei.
— Eles usam um nome falso por proteção. Seria perigoso se todos os bandidos e vilões soubessem onde eles moram, onde trabalham e quem é a família deles. Mas Jesus é o mais corajoso. Ele não tem medo de nada, nem de ninguém.
Cada um de nós tinha um argumento para convencer o garoto de que ele estava errado, e que não deveria misturar as coisas. Igreja e aventuras não combinavam.
Outro menino quis saber:
— E o uniforme? Que graça tem um super-herói que só usa aqueles panos para se cobrir?
Mas aquele garoto parecia ter uma resposta para tudo:
— Aqueles panos se chamam túnica, e era a roupa que se usava no tempo em que Jesus viveu. Se Ele existisse nos dias de hoje, acho que vestiria aquilo que todo mundo usa. Como eu disse, ele não ia precisar ficar escondendo o rosto, nem nada.
Fiquei olhando o garoto rebatendo todas aquelas dúvidas, e algo nele me fazia pensar diferente. Apesar de haver essa negação por parte de quase todos em se aceitar Jesus como um herói, as histórias do Evangelho ficavam muito mais interessantes depois que eu o imaginei como uma coletânea de histórias de heróis. Era bem possível que Jesus tenha sido uma espécie de super-homem, que combateu o mal e protegeu os fracos e oprimidos. E pensando bem, Jesus existiu mesmo. Não era ficção.
Havia tantas coisas fora do comum na vida de Cristo, e eu nunca tinha me interessado tanto por Ele. Mas naquela hora parece que deu um click em minha cabeça, e comecei a pensar melhor nas pessoas que se curaram só de tocá-Lo, e na vez em que foi visto caminhando sobre as águas, e ainda nas ocasiões em que previu o futuro — como na hora do beijo de Judas.
Sim, aquele menino parecia estar com certa razão, e deveria ser ouvido. Jesus seria um super-herói bem interessante. Nós é que ainda não tínhamos reparado.
Eu estava quase convencido, quando um outro garoto da nossa turma veio com a seguinte pergunta:
— Se Ele é um super-herói, cadê Ele?
Na mesma hora lembrei de Jesus na cruz, ensanguentado e humilhado.
O coroinha já estava se preparando para responder, mas o outro continuou:
— Que herói é esse, que apanha, é torturado e morto, e não faz nada?
Todos começamos a pensar naquilo. Super-heróis tinham obrigação de vencer, senão não seriam super-heróis.
— Jesus morreu! Mataram Ele! E nem teve dignidade de se defender! Se tinha realmente poderes, por que não usou quando mais precisou? Para mim, todas essas histórias são mentira. O professor falou lá na escola, uma vez que escutei atrás da porta, que isso tudo foi inventado pelos padres. Jesus era só um homem bom, que falava coisas bonitas, mas nunca curou ninguém, nem andou na água, nem nada...
O menino atirou aquelas frases como um jato de água gelada na minha recém inaugurada nova verdade. Eu já tinha mesmo ouvido essas histórias, de que não há provas sobre Jesus não ter passado de apenas um homem comum, sem nada de extraordinário.
Já estava começando a gostar de encará-lo como um herói, um protetor do Planeta, mas a afirmação daquele garoto fazia sentido: por que é que alguém se deixaria apanhar e morrer injustamente se tivesse como escapar? Por que Jesus não fez uma mágica e não derrotou todos aqueles que o maltrataram? Por que não fez as grades desaparecerem e não fugiu da prisão enquanto podia?
— Como é que você vai ser protegido por um herói que não consegue salvar nem a si mesmo? — disse, talvez não exatamente com essas palavras, o garoto revoltado.
O outro, que defendia o Cristo, estava ruminando as informações, e teve que levantar a voz para ser ouvido pela turma, que já começava a discutir.
— Mas Ele não morreu de verdade! Ele foi visto por várias pessoas depois da crucificação!
Foi aí que um novo menino, que também não devia ter gostado da imagem do Super Jesus, injetou um pouco mais de veneno na discussão:
— Então Ele não é um herói mesmo: é um fantasma! Ou pior: é um morto-vivo, um zumbi!
Aquilo bastou para que todos explodissem em gargalhadas. Nunca alguém havia falado algo daquele tipo, e se fôssemos pensar em todas as possibilidades para o que realmente era Jesus, passaríamos a tarde toda discutindo.
O garoto que começou a falar de Cristo sentiu-se exausto de tanto tentar convencer os amigos, e deu um longo suspiro, decepcionado com aquelas palavras tão amargas a respeito do seu ídolo. Naquele dia passamos a vê-lo como um católico chato e defensor da igreja, que não entendia nada sobre histórias em quadrinhos, nem sobre heróis, nem sobre aventuras legais, nem sobre nada. Não demorou muito para que parasse de sair conosco, e se tornasse apenas mais um rosto conhecido.
Passaram-se os meses, e continuamos a levar nossa vida de sempre. Toda a vez que eu tinha que ir à missa e via as figuras de Cristo crucificado estampadas pelas paredes, recordava de como quase acreditei que Ele tinha sido um super-herói. Não que Ele não tivesse sido um cara legal, mas também era exagero compará-Lo ao Aquaman, ou ao Super-Homem. Estes sim, não se deixariam ser presos, nem humilhados, abandonando aqueles que os seguem. Talvez tenha sido a maior decepção da minha vida até então, saber que alguém tão adorado no mundo inteiro não teve capacidade de se libertar de uma cilada, nem de se vingar exemplarmente de quem o traiu. As pessoas esperavam algo de Jesus, e Ele as decepcionou. Como eu poderia crer em um herói desses?
Tempos depois, não quis mais ir à igreja, preferindo ficar com meus gibis e álbuns de figurinhas. Eu já começava a formar minha própria personalidade, deixando de lado tudo que haviam me feito acreditar naqueles primeiros anos da minha vida. Meus pais ficaram tristes naquela época, mas sempre foram muito compreensivos e não me obrigaram a seguir a crença deles.
— O importante é crer em Deus — dizia meu pai, lembrando que todas as religiões adoravam o mesmo Pai, e que eu poderia seguir aquela que mais me agradasse.
Porém, naqueles anos em que começa a adolescência, não tive interesse em procurar religião alguma. Havia muitos outros assuntos interessantes a se aprender, e todos os amigos da turma concordavam com isso. Passamos a voltar para casa à noite, a fumar e a beber escondidos, e a nos envolver com garotas. Era isso o que faltava para eu deixar todos meus heróis de lado e a não querer mais ir, definitivamente, à igreja ou a qualquer outro templo.
Contávamos com quatorze anos. Numa dessas noites de loucura, em que conseguimos uma garrafa de vodka e vagávamos pela cidade em um velho Opala que algum rapaz pegou da garagem do pai, aconteceu algo que, mais uma vez, modificou minha visão.
O nosso motorista quis demonstrar sua habilidade ao volante, e passou a fazer manobras perigosas, em alta velocidade. Não contentes com as acrobacias nas ruas da cidade, rumamos para a rodovia, onde o automóvel poderia atingir seus limites.
Havia eu e mais três no interior do carro. Devíamos todos estar alucinados, gritando e rindo como doidos, achando que aquilo era aproveitar a vida.
No auge da agitação, como poderia se esperar, o veículo derrapou e saiu da pista, vindo a colidir com a grade de proteção de uma ponte de madeira, e caiu em um rio com pelo menos dez metros de profundidade.
Era noite, eu estava bêbado e preso ao assento do Opala, sem conseguir me mover, sentindo a fria água entrar pela janela.
Fiquei paralisado, sem entender o que estava acontecendo, com os olhos ardendo.
Um raro lampejo de razão que me veio à mente naquela hora,como um dedo me acusando: “Você não sabe nadar”.
Por mais que me esforçasse, sentia que não conseguiria sair do interior do veículo. E mesmo que conseguisse, morreria afogado. Já totalmente submerso, mas ainda descendo cada vez mais para o fundo das águas, percebi que já estava sozinho. Os outros deviam ter conseguido se soltar, e sabiam nadar.
Estava imerso no silêncio do rio, esperando o oxigênio e o meu suplício acabarem.
Na hora fatal, lembrei de muitas coisas que haviam se passado na minha vida. Pensei nos meus pais, nos meus amigos, nas minhas brincadeiras, na escola. Pensei nas garotas que eu gostava, nas revistas em quadrinhos que eu lia, nas sessões de cinema de sábado à tarde, e na igreja que eu havia abandonado. Apesar de minha desistência, deveriam fazer uma missa pelo meu passamento. Um padre diria coisas bonitas a meu respeito, e meus tristes pais depositariam flores em meu túmulo e manteriam meu quarto do jeito como estava, para que eu não me apagasse da memória deles. A escola não abriria no dia seguinte, e a professora faria uma oração com os alunos assim que as aulas retornassem ao normal.
Foi já com os olhos fechados, pensando no meu fim, que senti um puxão nas minhas vestes. Uma mão me agarrava e, com muita força, me atraía para fora do carro. Fui como que pescado, e levado para o alto das águas, até atingir a superfície. A primeira golfada de ar que inundou meus pulmões me deu a sensação de estar nascendo naquele momento. Ninguém à volta saberia que eu chorava, porque as lágrimas se confundiam com a água que cobria meu rosto.
Deitado no chão, vi a alguns metros de distância os olhares assustados e culpados dos meus três companheiros, e logo em seguida notei outro rosto perto do meu. Era de um homem loiro que eu nunca havia visto, apesar de parecer estranhamente familiar, e cujos olhos expressavam um grande assombro.
— Está vivo! Graças a Deus! — dizia ele.
Depois enfiou a mão pela gola da sua camisa laranja encharcada, e de lá tirou uma corrente com uma cruz de prata, e levou-a aos lábios para dar um carinhoso beijo.
— Foi Jesus Cristo quem me fez estar passando aqui. Foi Ele quem me deu coragem para me atirar na água e te salvar. Rapaz: é Ele o teu herói.
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